Islamofobia no Brasil: terceiro relatório de pesquisa aprofunda compreensão sobre as mulheres muçulmanas

Créditos da Imagem: III Relatório de Islamofobia no Brasil

Francirosy Campos Barbosa

Por Francirosy Campos Barbosa

  • 17 jun 2026
  • 6 min de leitura
Islamofobia no Brasil: terceiro relatório de pesquisa aprofunda compreensão sobre as mulheres muçulmanas
Compartilhe

O III Relatório de Islamofobia no Brasil foi lançado pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP), o Gracias. O texto representa a continuidade de um trabalho de monitoramento acadêmico iniciado em 2022, que já teve dois relatórios publicados. 

O primeiro dos relatórios definiu islamofobia como “‘medo do Islam’ que acarreta um sentimento de ódio e/ou repúdio em relação aos muçulmanos e à religião islâmica” e mapeou a presença muçulmana no país e apontou a vulnerabilidade das mulheres revertidas que usam o hijab. O segundo deles, produzido após os ataques de 7 de outubro de 2023 e a escalada militar israelense em Gaza que se seguiu, ouviu 310 pessoas e confirmou o crescimento de episódios de islamofobia também no Brasil. Este fenômeno foi diretamente atribuído pelo European Islamophobia Report [Relatório Europeu sobre Islamofobia], de 2024, ao agravamento do conflito Israel-Palestina ao longo daquele ano.

O novo relatório, lançado pelo Gracias neste junho de 2024, aprofunda essa trajetória ao concentrar-se nas experiências de mulheres muçulmanas, com a articulação de três eixos de análise: o antropológico-sociológico, voltado às dinâmicas culturais e estruturais da discriminação; o da saúde mental, que evidencia os efeitos subjetivos da islamofobia; e o jurídico, que situa as condutas relatadas como possíveis violações de direitos fundamentais. 

A pesquisa foi aplicada a 328 mulheres, divididas em quatro grupos (brasileiras nascidas muçulmanas, brasileiras revertidas, estrangeiras nascidas muçulmanas e estrangeiras revertidas), com coleta concentrada no primeiro trimestre de 2026 e alcance em todas as regiões do país. Dado o número reduzido de respondentes estrangeiras, entre quatro e oito por subgrupo, o Gracias optou por tratar esses dados qualitativamente, evitando gráficos que induzissem generalizações indevidas. O questionário, com perguntas não obrigatórias dado o caráter sensível do tema, permitiu maior liberdade às participantes, o que explica variações no número de respostas por questão.

Assim como nos levantamentos anteriores, houve maior adesão de brasileiras revertidas, reforçando a hipótese de que esse subgrupo é o mais vulnerável dentro da comunidade muçulmana. O grupo destaca que, embora a amostra de 328 respondentes pareça pequena, ela é expressiva frente ao tamanho estimado da população muçulmana brasileira: o Censo de 2010 (IBGE) registrou apenas 35.166 muçulmanos, e o Censo de 2022 passou a agregar minorias religiosas na categoria “outras religiosidades”, sem a divulgação dos dados específicos da população muçulmano. 

Entidades como a (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), a União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI) e o Centro de Divulgação do Islam para a América Latina (CDIAL) citam números entre 800 mil a 2 milhões de fiéis islâmicos, sem base metodológica pública. Já o Gracias, a partir do crescimento do número de mesquitas desde os anos 2000 e de observações de campo em períodos de Eid (celebrações mais importantes do calendário religioso), estima que haja de 140 mil e 200 mil pessoas vinculadas à fé islâmica.

Os resultados confirmam um padrão já identificado nos relatórios anteriores: cerca de oito em cada dez mulheres relataram ter sofrido islamofobia, em espaços públicos, ambientes virtuais, locais de trabalho e contextos educacionais. Entre as brasileiras revertidas, 84,5% já foram vítimas de algum ato islamofóbico, mas 94% não registraram boletim de ocorrência e 78,3% não buscaram atendimento em saúde mental, ainda que 83,8% associem a islamofobia ao agravamento de sintomas de depressão e ansiedade; 96,7% acreditam que a mulher muçulmana é discriminada no Brasil e 70,5% têm a própria reversão questionada por familiares e amigos. 

Entre as brasileiras nascidas muçulmanas, 92,2% reconhecem a discriminação contra mulheres muçulmanas e 80,4% já a sofreram diretamente, com 91,3% não tendo registrado ocorrência. 

Fonte: Imagem gerada com Claude Sonnet 4.6 (Anthropic) 

Nos grupos de estrangeiras, nascidas ou revertidas, a totalidade das respondentes relatou preconceito por ser muçulmana, somado a índices de xenofobia de 60% e 75%, evidenciando a sobreposição entre os dois marcadores de discriminação.

Fonte: Imagem gerada com Claude Sonnet 4.6 (Anthropic) 

Para o Gracias, esses números revelam uma “islamofobia estrutural”, que não se restringe a episódios isolados, mas atravessa múltiplas esferas da vida social sob formas verbais, simbólicas e institucionais, da família às instituições de ensino e aeroportos, passando pela permanência de estereótipos como o da “mulher-bomba”. Os baixos índices de denúncia e de busca por apoio psicológico, somados à percepção de que a sociedade não reconhece os impactos emocionais da islamofobia, indicam barreiras institucionais que favorecem a subnotificação do fenômeno.

A novidade deste III Relatório está na incorporação de uma análise jurídica sistemática, que define a islamofobia como o conjunto de condutas, práticas institucionais e omissões estatais fundamentadas em discriminação religiosa ou na racialização da identidade muçulmana, violando direitos consagrados na Constituição e em tratados internacionais ratificados pelo Brasil. Essa abordagem busca nomear juridicamente as violências relatadas, mapear os mecanismos legais de proteção disponíveis (ainda que pouco acessíveis na prática) e apontar as lacunas normativas que ajudam a explicar os altos índices de subnotificação, dando continuidade à recomendação de “atenção jurídica” já presente no I Relatório.

O Gracias reafirma o compromisso de oferecer subsídios para políticas públicas e ações comunitárias de enfrentamento à islamofobia, anunciando que o relatório segue com relatos anônimos das respondentes, na tentativa de dar densidade humana aos números e sublinhar a urgência do tema.

(*) Pesquisadores/as:

Camila Motta Paiva

Felipe Freitas de Souza

Felipe Sanches Carnielli

Francirosy Campos Barbosa (Coordenadora)

Luiz Felipe Dias Pereira

Najwa Dagash

Natalia Cristina Augustini de Lima

Para saber mais:

“Intolerância Religiosa”, Glossário da Plataforma Religião e Poder, por Francirosy Campos Barbosa, Lusmarina Campos Garcia e Magali Cunha  (2025)

Relatório de Recomendações para o Enfrentamento Discurso de Ódio e ao Extremismo no Brasil (Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, 2023)

“Hijab e o direito de ser muçulmana no Brasil”,  artigo na Plataforma Religião e Poder, por Francirosy Campos Barbosa (2023)

I Relatório de Islamofobia no Brasil (2022

II Relatório de Islamofobia no Brasil (Pós 7/10/2023

III Relatório de Islamofobia no Brasil, (2026)

Conteúdos relacionados