Sessão no Senado e Marcha pela Vida evidenciam articulação entre ativismo pró-vida, lideranças religiosas e representação política

Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Ana Carolina Marsicano

Por Ana Carolina Marsicano

  • 12 jun 2026
  • 6 min de leitura
Sessão no Senado e Marcha pela Vida evidenciam articulação entre ativismo pró-vida, lideranças religiosas e representação política
Compartilhe

Sessão especial realizada no Senado Federal em homenagem a organizações pró-vida e aos 19 anos da Marcha pela Vida evidenciou o fortalecimento institucional de um campo político e religioso mobilizado em torno da oposição ao aborto e da defesa da vida desde a concepção. O evento reuniu parlamentares, representantes de organizações da sociedade civil, lideranças religiosas e integrantes do Movimento Nacional Brasil Sem Aborto, que apresentaram o movimento como uma rede de acolhimento a gestantes e de incidência sobre políticas públicas e decisões judiciais.

Ao abrir a sessão, a senadora evangélica Damares Alves destacou o trabalho das entidades homenageadas, definindo-as como instituições que atuam diretamente no atendimento a mulheres e crianças. Em sua fala, ressaltou a diversidade religiosa e organizacional do movimento, mencionando a participação de grupos evangélicos, católicos, espíritas e entidades sem vinculação religiosa formal, reunidos em torno da pauta da defesa da vida.

Um dos temas centrais do encontro foi a trajetória do Movimento Nacional Brasil Sem Aborto, apresentado como uma articulação que ultrapassou a esfera da mobilização social para conquistar espaço nas instituições políticas. Segundo os participantes, o movimento passou a ocupar posições de influência no Legislativo e no Executivo, com antigos ativistas exercendo mandatos parlamentares e cargos de governo. A defesa da vida desde a concepção foi reiterada como eixo estruturante da atuação do grupo, que se define como um movimento propositivo e não apenas reativo diante das disputas em torno dos direitos reprodutivos.

A Marcha pela Vida foi descrita pelos participantes como um instrumento de mobilização política voltado à incidência sobre os Três Poderes. Para os organizadores, a realização do ato em Brasília tem o objetivo de pressionar instituições estatais e reafirmar publicamente a defesa da vida intrauterina e de políticas voltadas às mulheres. Ao longo das intervenções, lideranças do movimento procuraram construir uma identidade coletiva baseada em valores morais, na valorização do acolhimento e na defesa de princípios religiosos associados à proteção da vida.

Também recebeu destaque a articulação entre diferentes tradições religiosas. O senador espírita Eduardo Girão (NOVO/CE) afirmou que o avanço do movimento ocorreu por meio da cooperação entre católicos, evangélicos e espíritas, que teriam deixado divergências doutrinárias em segundo plano para atuar conjuntamente em campanhas, audiências públicas, seminários e manifestações.

A dimensão religiosa da mobilização tornou-se ainda mais evidente após a sessão parlamentar. Os participantes seguiram para a Catedral Metropolitana de Brasília, onde foi celebrada uma missa preparatória para a Marcha pela Vida. A celebração reuniu grande número de fiéis, muitos utilizando símbolos associados ao movimento pró-vida, como lenços azuis com a inscrição “2 vidas”. A cerimônia foi presidida por Dom Paulo Cezar Costa e contou com referências recorrentes à defesa da vida intrauterina, à atuação de profissionais da saúde contrários ao aborto e ao trabalho de organizações pró-vida.

Durante a celebração, religiosos associaram a pauta da defesa da vida a fundamentos morais e religiosos, defenderam alternativas ao aborto, como a adoção, e convocaram os presentes a participar da Marcha pela Vida. Ao final da missa, lideranças e participantes deslocaram-se para a concentração da manifestação nas proximidades do Museu Nacional da República. A sequência entre sessão parlamentar, celebração religiosa e ato público evidenciou a integração entre representantes políticos, organizações civis e atores religiosos na construção da mobilização.

Outro aspecto recorrente nos discursos foi a disputa em torno da proteção das mulheres. A deputada católica Chris Tonietto (PL/RJ) apresentou o movimento pró-vida como uma rede de acolhimento voltada simultaneamente às gestantes e aos fetos, defendendo ações de assistência material e social para mulheres grávidas. Em sua argumentação, contrapôs essa perspectiva às propostas de ampliação do acesso ao aborto e defendeu que situações de violência sexual devem ser enfrentadas por meio de políticas de segurança pública e responsabilização dos agressores.

As discussões jurídicas também ocuparam espaço relevante. Representantes do Movimento Nacional Brasil Sem Aborto manifestaram críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal em temas relacionados aos direitos reprodutivos e defenderam que mudanças na legislação sobre aborto devem ocorrer prioritariamente por meio do Congresso Nacional. As falas revelaram preocupação com decisões judiciais recentes e reforçaram a defesa da centralidade do Legislativo na deliberação sobre questões bioéticas.

A participação do Conselho Federal de Medicina foi marcada pela intervenção de sua vice-presidente, a espírita Rosylane Nascimento Rocha, que reafirmou a posição institucional da entidade em favor da vida desde a concepção até a morte natural. A dirigente também reiterou o apoio do conselho à Resolução nº 2.378/2024, frequentemente mencionada nos debates sobre aborto e assistência médica, e finalizou sua fala com os dizeres “viva a medicina segura, sim à vida, não ao aborto.”

Por sua vez, a católica Andrea Hoffman, representante do Instituto Isabel, apresentou uma defesa explícita do direito natural como fundamento para a oposição ao aborto. Em sua exposição, argumentou que políticas públicas e decisões judiciais devem assegurar direitos considerados fundamentais, como o direito à vida, à família e à autoridade dos pais sobre os filhos. A dirigente caracterizou a atuação da entidade como “lobby do bem”, exercendo influência institucional voltada à produção de mudanças legislativas e jurídicas.

O conjunto das atividades observadas — sessão parlamentar, celebração religiosa e manifestação pública — evidenciou o fortalecimento de uma rede que articula organizações da sociedade civil, lideranças religiosas e representantes políticos em torno da pauta pró-vida. Ao mesmo tempo, os discursos revelaram a permanência de disputas políticas, jurídicas e morais relacionadas aos direitos reprodutivos, ao papel do Judiciário e aos limites da atuação estatal sobre o tema, indicando a centralidade que a questão do aborto continua ocupando no debate público brasileiro.

Como citar

MARSICANO, Ana Carolina. "Sessão no Senado e Marcha pela Vida evidenciam articulação entre ativismo pró-vida, lideranças religiosas e representação política". Religião e Poder, 12 jun. 2026. Disponível em: . Acesso em: .

Conteúdos relacionados

Conteúdos relacionados