Religião, masculinidade viril e retórica da perda na política brasileira pós-Bolsonaro
Conteúdo produzido em parceria ISER / NEXO JORNAL. Uma versão deste texto foi originalmente publicada no Nexo Políticas Públicas, em 10 jun. 2026.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Por Christina Vital da Cunha
- 11 jun 2026
- 8 min de leitura

Este artigo, publicado na Revista Religião & Sociedade, analisa a relação entre o crescimento do extremismo conservador no Brasil, a retórica da perda e os grupos voltados à recuperação de uma “masculinidade viril”.
As reflexões apresentadas resultam de pesquisas desenvolvidas ao longo de mais de quinze anos, produzidas em parcerias institucionais entre UFF, Faperj, CNPq, Iser, Fundação Heinrich Böll e Fundação Ford.
Essas pesquisas tiveram como objetivo analisar o comportamento de parlamentares religiosos, notadamente evangélicos, católicos e afrorreligiosos. Quais pontos de contato existiam entre eles? Quais eram suas agendas e estratégias de ação? Quais imagens buscavam projetar? Para quais públicos e em quais situações?
Esse trabalho coletivo permitiu desenvolver noções como a de retórica da perda, central nas análises sobre o contexto político contemporâneo e sobre as demandas em torno do resgate de uma complementaridade funcional de gênero.
Qual a relação entre o crescimento do extremismo conservador no Brasil, a retórica da perda e os grupos voltados à recuperação de uma “masculinidade viril”?
Há quase vinte anos, as eleições são cada vez mais disputadas com base na exploração de sentimentos de ameaça e na recuperação de valores. Nesse período, observamos a consolidação de uma retórica da perda que pode ser entendida como uma tática discursiva articulada por diferentes lideranças sociais, religiosas ou não, fundada em um imperativo: o retorno da ordem, da previsibilidade, da segurança, da unidade e da autoridade (Vital da Cunha 2020).
Trata-se de um discurso contrário às transformações sociais vividas no mundo desde 1960 e, no Brasil, sobretudo a partir de 2000. A insegurança moral e até ontológica em torno de paradigmas sobre corpo e sexualidade, raça e gênero produziu, em parcela significativa da população, o desejo de retorno a um status quo no qual não se percebiam tantas ameaças físicas, morais e patrimoniais.
Diante de mudanças voltadas à desconstrução de padrões de normalidade que negavam legitimidade a grupos e modos de vida, a retórica da perda propõe o “resgate” de uma sensação de segurança, real ou suposta.
Políticos conservadores e à direita consideram a defesa de um modelo de família central para a recuperação da funcionalidade social. Nela, o caráter “natural” do gênero, baseado na associação entre identidade e sexo de nascimento, assim como a hierarquia “complementar” entre homens e mulheres, constitui a base da retórica da perda.
Esta, mobilizada por meio de imagens, gramáticas e performances públicas, afirma a força física, irreverência, virilidade e impulsividade “naturais” de um sexo. Tornam-se mecanismos de ostentação de uma masculinidade hegemônica, não necessariamente majoritária, já que “apenas uma minoria dos homens talvez a adote. Mas ela é normativa. Incorpora a forma mais honrada de ser um homem, exige que todos os outros homens se posicionem em relação a ela e legitima ideologicamente a subordinação global das mulheres aos homens” (Connell e Messerschmidt 2013:245).
A formação de padrões sociais, reguladores da ação coletiva, não visa retratar necessariamente a maioria, mas estabelecer distinções e hierarquias. Ao mesmo tempo em que constrangem e separam, produzem segurança e horizonte dando a ver o caráter ambíguo do fato social.
Assim, esse fenômeno integra uma construção social não planejada por um único indivíduo nem orientada por um único objetivo, mas que cresce porque mobiliza sentimentos públicos e inquietações sociais diversas.
A toxicidade do fenômeno reside em atores que procuram conduzir legitimamente esses sentimentos para “recolocar a sociedade nos eixos”, desrespeitando a pluralidade e os direitos humanos e escamoteando, muitas vezes, interesses econômicos e institucionais. Desvelar esse fenômeno, identificando os diferentes mecanismos em torno da “recuperação da masculinidade viril”, oferece uma chave de análise do contexto nacional.
As reflexões apresentadas neste artigo resultam de pesquisas desenvolvidas ao longo de mais de quinze anos, produzidas em parcerias institucionais entre UFF, Faperj, CNPq, Iser, Fundação Heinrich Böll e Fundação Ford.
Essas pesquisas tiveram como objetivo analisar o comportamento de parlamentares religiosos, notadamente evangélicos, católicos e afrorreligiosos. Quais pontos de contato existiam entre eles? Quais eram suas agendas e estratégias de ação? Quais imagens buscavam projetar? Para quais públicos e em quais situações?
A continuidade desse trabalho coletivo permitiu desenvolver noções como a de retórica da perda, central nas análises sobre o contexto político contemporâneo e sobre as demandas em torno do resgate de uma complementaridade funcional de gênero.
Nesse sentido, a investigação sobre a construção de uma masculinidade viril e de um ativismo feminino conservador vem ganhando destaque, especialmente no que se refere ao alinhamento religioso dessa produção de gênero.
Se, entre os homens, o resgate da “dominação masculina” (Bourdieu, 1998) torna-se evidente, entre as mulheres desse ativismo conservador a passividade não constitui propriamente uma marca. O enfrentamento de abusos e violências masculinas está na ordem do dia. Um enquadramento importante em todas as investigações é o de uma sociologia compreensiva, interessada nos sentidos atribuídos pelos atores às suas práticas e experiências, ao mesmo tempo em que reconhece a multiplicidade de causas possíveis para o desenvolvimento de cada fenômeno observado.
A análise de situações e a escuta dos atores, na complexidade do que os afeta, constituem aspectos centrais dessa trajetória de pesquisa, em entrevistas com Damares Alves, Jair Bolsonaro, Pastor Everaldo, Marcos Feliciano e Bispo Manoel Ferreira, entre outros.
Não há solução simples para o enfrentamento da cilada que a retórica da perda representa como tecnologia de poder articulada por políticos na atualidade. Isso ocorre precisamente porque essa tecnologia mobiliza sentimentos de antagonismo à modernidade, apresentando o retorno ao passado como utopia e oferecendo a esperança de um futuro melhor espelhado no passado: o masculino viril recuperado, a família tradicional, os papéis definidos de gênero, a autoridade, a unidade, o universal em oposição ao multicultural.
A percepção, compartilhada globalmente, dos riscos e ameaças nos planos ambiental, urbano, moral e psicológico relacionados à reprodução material vem crescendo desde os anos 1990, e a difusão da informação via internet potencializou essas sensações.
Nesse cenário, o oferecimento de utopias baseadas no respeito e na valorização da diversidade cultural e religiosa, aliado ao mérito individual e coletivo para a conquista de mudanças locais e globais, parece relevante.
A denúncia da meritocracia como ideologia que aliena os indivíduos em relação às clivagens de classe, etnia, raça, gênero e sexualidade é fundamental. Por outro lado, é necessário distinguir a meritocracia como forma ideológica do mérito como força motriz individual e/ou coletiva voltada a transformações sociais. A ideia de que o esforço individual e coletivo produz conquistas e realiza sonhos e utopias parece constituir um elemento motivacional importante.
Para se contrapor à retórica da perda como tecnologia de poder, torna-se fundamental posicionarmo-nos com os olhos voltados para o futuro, desejosos de um mundo melhor, em vez de amedrontados, cansados e atordoados, como parecemos estar.
O artigo “Religião, masculinidade viril e retórica da perda na política brasileira pós-Bolsonaro” foi publicado em Religião & Sociedade, uma das mais antigas revistas das ciências sociais no país, em um dossiê temático que articula religião, gênero e sexualidade.
Os dois volumes deste dossiê são resultados de um evento realizado na Universidade Federal de Juiz de Fora, reunindo profissionais de diferentes áreas como antropólogos, sociólogos e cientistas da religião com o objetivo de explorar as diferentes interfaces entre os temas do dossiê, notáveis na construção de identidades, em disputas políticas, em torno de valores, nas performances públicas em torno da verdade.
Nessa medida, e em razão do crescente debate público em torno das masculinidades, a leitura deste artigo extrapola o interesse de especialistas, podendo ser apreciado por todas as pessoas atentas aos temas que envolvem relações entre política, religião e gênero no Brasil contemporâneo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bauman, Zygmunt. (2017), Retrotopia. Rio de Janeiro: Zahar.Meu artigo 2017.
Bourdieu, Pierre. (2012). A dominação masculina. 11° ed. – Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.
Connell, Robert; Messerschmidt, James. (2013), “Masculinidade hegemônica: repensando o conceito”. Estudos Feministas, Florianópolis, vol. 21, nº 1: 424.
Vital da Cunha, Christina. (2020), “Retórica da perda nas eleições presidenciais brasileiras em 2018: religião, medos sociais e tradição em foco”. Revista Plural – Antropologias desde America Latina y del Caribe, vol. 2, nº 6.
Welzer-Lang, Daniel. (2001), “A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia”. Revista Estudos Feministas, vol. 9, nº 2: 460-482.
Como citar
CUNHA, Christina Vital da. "Religião, masculinidade viril e retórica da perda na política brasileira pós-Bolsonaro". Religião e Poder, 11 jun. 2026. Disponível em: . Acesso em: .
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