Como grupos católicos e políticos evangélicos tentam levar a agenda de “vida, família e liberdade” aos planos de governo futuros

fotoFoto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil

Silas Veloso

Por Silas Veloso

  • 28 jul 2026
  • 9 min de leitura
Como grupos católicos e políticos evangélicos tentam levar a agenda de “vida, família e liberdade” aos planos de governo futuros
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Dois documentos de referência para as eleições – um dirigido às candidaturas à Presidência da República e outro às candidaturas aos governos estaduais – foram divulgados pelo Instituto Isabel, em 27 de julho de 2026, em seu perfil no Instagram. Os textos denominados “documentos de referência”,  indicam as pautas da organização em propostas legislativas, decretos, políticas públicas, dotações orçamentárias e medidas administrativas adaptadas às competências de cada cargo.

A iniciativa integra uma sequência de ações, iniciadas em 8 de abril de 2026, quando o próprio Instituto Isabel lançou, no Auditório Freitas Nobre da Câmara dos Deputados, a Agenda Legislativa da Vida, da Família e das Liberdades Fundamentais, acompanhada de uma carta-compromisso destinada à adesão de pré-candidatos. 

Fundado em 2023 e presidido pela advogada Andrea Hoffmann Formiga (Católica), a organização afirma ser civil, juridicamente orientado e suprapartidário, embora reconheça que suas pautas se aproximam sobretudo dos partidos de direita. A organização da sociedade civil declara ter alinhamento com a tradição judaico-cristã, que fundamenta, por sua vez, uma concepção político-religiosa de direito natural.

A articulação do grupo com o campo evangélico da direita, é percebido, por exemplo, quando a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) lançou sua própria Agenda Legislativa 2026, em 19 de maio. A (FPE), presidida por Gilberto Nascimento (Podemos-SP), tem como vice-presidente Greyce Elias (PL-MG), parlamentar que se apresenta como cristã e defensora de valores bíblicos. No evento, o Instituto Isabel focou a sua participação por meio da defesa de “direitos naturais” e/ou “direitos humanos autênticos”.

Essa articulação entre grupos e atores políticos evangélicos e católicos reúne o Instituto Isabel, a Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED), parlamentares alinhados à direita e organizações comprometidas com a chamada “liberdade educacional”, entendida como prioridade da autoridade parental, liberdade de ensino e regulamentação do homeschooling

Em 26 de maio de 2026, a Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED), também presente no lançamento da Agenda Legislativa da FPE, realizou, na Câmara dos Deputados, o I Fórum ANED, destinado à mobilização de famílias, especialistas e pré-candidatos. Em junho, o Instituto Isabel aderiu à Declaração de Aliança pela Liberdade Educacional, compromisso público que agrega entidades favoráveis à educação domiciliar e à ampliação do poder das famílias sobre conteúdos, métodos e escolhas educacionais. Andrea Hoffmann Formiga participou, ainda, nos dias 9 e 10 de junho de 2026, de audiências sobre o tema na Câmara e no Senado. A primeira foi requerida pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG); a segunda, foi presidida pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE).

Os documentos divulgados nas redes digitais, em 27 de julho de 2026, organizam essa articulação político-religiosa em três pilares: 

  • vida, protegida da concepção à morte natural; 
  • família, definida como núcleo natural da sociedade e autoridade prioritária na educação e na saúde dos filhos; e 
  • liberdades fundamentais, que reúnem liberdade religiosa, liberdade de expressão e objeção de consciência. 

Com este conteúdo o Instituto Isabel se dispõe a formular prioridades legislativas, reunir adesões públicas, aproximar organizações e parlamentares e entregar propostas prontas às candidaturas. Essa plataforma comum permite enquadrar as eleições como disputa moral e civilizacional, aproximando candidaturas de partidos distintos em torno de compromissos compartilhados desde um diálogo político-religioso.

Como hipótese analítica, essa articulação pode produzir dois efeitos eleitorais. O primeiro é o fortalecimento do voto identitário cristão, com maior circulação de apoio para candidaturas proporcionais e possível ampliação das bancadas conservadoras. O segundo é a convergência católico-evangélica, capaz de reunir bases religiosas antes dispersas, em torno de candidaturas apoiadas por institutos, associações e frentes parlamentares. A confirmação desses efeitos dependerá das alianças formalizadas, das campanhas e dos resultados das eleições de 2026.

DOCUMENTODESTINATÁRIOPRINCIPAIS INSTRUMENTOS
Plano federalPré-candidatos à PresidênciaLei, veto, decreto, orçamento, ministérios, SUS e regulação nacional
Plano estadualPré-candidatos a governadorLei estadual, decreto, orçamento, redes de ensino e saúde, convênios e articulação federativa

Fonte: autor

Nos dois documentos do Instituto Isabel, pautas políticas-morais são traduzidas em medidas de governo. O plano federal reúne propostas de leis, vetos, orçamento e regulação nacional; o estadual leva as mesmas diretrizes para as redes de ensino e saúde, os convênios e a atuação dos governadores. Ideias como “vida desde a concepção”, “família natural”, “autoridade parental” e “objeção de consciência” tornam-se protocolos e objetos político-discursivos para determinar modos de compreender à saúde, políticas de natalidade, benefícios fiscais, educação domiciliar, controle de materiais escolares e consentimento dos responsáveis para a educação sexual.

 Como a educação integra o capítulo dedicado à família, escola e currículo são organizados a partir da prioridade atribuída aos pais. Ao se analisar com mais profundidade o site da instituição, essa mesma orientação alcança a saúde de crianças e adolescentes, as políticas de gênero e diversidade sexual, o uso de telas, a primeira infância e a prevenção às drogas. 

O próprio Instituto Isabel apresenta essa passagem dos valores para a administração pública nos seguintes termos do documento destinado à presidência: 

Ao apresentar estas sugestões, o Instituto Isabel não pleiteia adesão ideológica nem endosso a candidatura alguma. Busca oferecer a cada pré-candidatura um instrumento técnico e exequível, para que os princípios de proteção à vida, à família e às liberdades fundamentais se traduzam em compromissos objetivos, juridicamente fundamentados e compatíveis com as competências do cargo pretendido Por essa razão, o documento tem versões para a esfera de competência federal, para o cargo de Presidente da República, e para a esfera estadual, para os cargos de Governador de Estado. Além disso, cada proposta indica o instrumento de governo correspondente: iniciativa legislativa, veto, decreto, política pública ou dotação orçamentária. Sempre que possível, as propostas apoiam-se em evidência verificável, a exemplo do Programa Famílias Fortes, política pública de efetividade demonstrada na prevenção ao uso de drogas e no fortalecimento dos vínculos familiares. (Documento de referência para candidatos a Presidente da República, 2026)

Uma análise do discurso dos planos federal e estadual (compreendendo o discurso como prática social, segundo Laclau e Mouffe, 2015), mostra que eles funcionam como infraestrutura eleitoral de uma articulação cristã-familista-conservadora. Como analisa Ana Carolina Marsicano, na tese Os leigos cristianizam o mundo: católicos e política antigênero no Governo Federal (2019–2022), grupos católicos conservadores aproximam argumentos religiosos, jurídicos e políticos em defesa da vida, da família e da liberdade. Nos documentos divulgados em 27 de julho de 2026, esses significantes também permitem alianças com parlamentares evangélicos e defensores da educação domiciliar, sem eliminar suas diferenças institucionais e doutrinárias. 

Em uma reflexão sobre os cenários eleitorais e pós-eleitorais de 2026, o texto de Regina Novaes, A divina política: notas sobre as relações delicadas entre religião e política, ajuda a entender como católicos e evangélicos podem construir acordos eleitorais sem apagar suas diferenças. A Agenda Legislativa da Frente Parlamentar Evangélica e os planos federal e estadual do Instituto Isabel se aproximam na defesa da vida desde a concepção, da família, da liberdade religiosa, da educação e da proteção de crianças. Enquanto a FPE seleciona e acompanha projetos em tramitação no Congresso, o Instituto Isabel oferece às candidaturas textos para a formulação de projetos de lei e decretos, para orçamentos e políticas em torno de saúde e educação. Essa complementaridade permite que uma mesma pauta circule da campanha ao Legislativo e, após as eleições, alcance a administração pública.

No entanto, é relevante ressaltar que, apesar de ocupar posição hegemônica, essa articulação convive com correntes cristãs progressistas que disputam os sentidos de família, liberdade e proteção a partir dos direitos humanos e do pluralismo. Ainda assim, projetos com identidade fundamentalista tensionam a democracia quando buscam transformar preceitos de determinados grupos religiosos em normas para toda a sociedade.

Referências

LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemonia e estratégia socialista: por uma política democrática radical. Tradução de Joanildo A. Burity, Josias de Paula Júnior e Aécio Amaral. São Paulo: Intermeios; Brasília, DF: CNPq, 2015.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Educação domiciliar, liberdade educacional e segurança jurídica para crianças e suas famílias. Brasília, DF, 9 jun. 2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/internet/ordemdodia/integras/3143828.htm. Acesso em: 27 jul. 2026.

Para saber mais

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DOMICILIAR (ANED). Declaração de Aliança: carta aberta em apoio à Liberdade Educacional. Brasília, DF, 2026. Disponível em: https://aned.org.br/liberdade/alianca/. Acesso em: 27 jul. 2026.

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DOMICILIAR (ANED). I Fórum ANED. Brasília, DF, 26 maio 2026. Disponível em: https://aned.org.br/eventos/. Acesso em: 27 jul. 2026.

BOLDRINI, Angela. Organização de mulheres faz lobby contra aborto e por “agenda da família” em Brasília. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 jan. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/01/organizacao-de-mulheres-faz-lobby-contra-aborto-e-por-agenda-da-familia-em-brasilia.shtml. Acesso em: 27 jul. 2026.

BRASIL. Senado Federal. Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. 36ª Reunião Extraordinária: audiência pública sobre educação domiciliar. Brasília, DF, 11 jun. 2026. Disponível em: https://legis.senado.leg.br/atividade/comissoes/comissao/834/reuniao/14739. Acesso em: 27 jul. 2026.

ELIAS, Greyce. Lançada Agenda Legislativa 2026 da Frente Parlamentar Evangélica: vice-presidente, deputada Greyce Elias, faz discurso em defesa da família e pela liberdade. Deputada Greyce Elias, 19 maio 2026. Disponível em: https://greyceelias.com.br/lancada-agenda-legislativa-2026-da-frente-parlamentar-evangelica-vice-presidente-deputada-greyce-elias-faz-discurso-em-defesa-da-familia-e-pela-liberdade/. Acesso em: 27 jul. 2026.

INSTITUTO ISABEL. Carta-compromisso pela Vida, Família e Liberdades Fundamentais para as eleições de 2026. Brasília, DF: Instituto Isabel, 2026. Disponível em: https://isabel.org.br/wp-content/uploads/2026/04/CARTA-COMPROMISSO-1.pdf. Acesso em: 27 jul. 2026.

INSTITUTO ISABEL. O escudo da vida, da família e da liberdade. Brasília, DF, [2026]. Disponível em: https://isabel.org.br/. Acesso em: 27 jul. 2026.

Como citar

VELOSO, Silas. "Como grupos católicos e políticos evangélicos tentam levar a agenda de “vida, família e liberdade” aos planos de governo futuros". Religião e Poder, 28 jul. 2026. Disponível em: . Acesso em: .

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