A instrumentalização da infância na política brasileira
Conteúdo produzido em parceria ISER / NEXO JORNAL. Uma versão deste texto foi originalmente publicada no Nexo Políticas Públicas, em 04 set 2026.
Créditos da Imagem: CNN Brasil – Reprodução: Youtube
Por Maria Eduarda Antonino e Ana Carolina Marsicano
- 08 set 2026
- 6 min de leitura

As disputas em torno da infância envolvem concepções distintas sobre família, educação, religião e o papel do Estado
A infância se tornou uma das linguagens mais poderosas da política brasileira. Em discursos, vídeos e fotografias, crianças aparecem como símbolo de inocência, futuro, família e vulnerabilidade.
Na comunicação de lideranças da direita, essas imagens participam da construção de discursos sobre proteção da infância, ameaças a ela e valores considerados fundamentais para a vida coletiva. Uma pesquisa sobre a comunicação digital de 15 mulheres vinculadas à direita brasileira 1 , com um corpus preliminar de 763 publicações no Instagram entre 2022 e 2026, oferece uma chave para compreender esse fenômeno.
O dado mais revelador não é simplesmente que crianças aparecem muito, mas o trabalho político que sua imagem realiza. Nos resultados preliminares, a infância aparece sobretudo associada à família, maternidade, futuro, afeto, religião e proteção. Nas publicações analisadas, essas ideias são frequentemente mobilizadas por meio de imagens e situações concretas. Retratos domésticos remetem à família, enquanto fotografias das lideranças com seus filhos reforçam referências à maternidade. Já as menções a filhos, netos e próximas gerações aparecem associadas à ideia de futuro.
Essa operação é especialmente eficaz nas redes sociais, onde a fronteira entre vida privada e vida pública se tornou porosa. No Instagram, discurso parlamentar, celebração religiosa, fotografia em família e vídeo de campanha convivem no mesmo perfil. A intimidade tornou-se parte da política.
É aí que surge uma tensão relevante. Parte do conservadorismo contemporâneo organiza sua comunicação em torno da ideia de que a infância está ameaçada por agentes externos à família: escolas, políticas de educação sexual, movimentos feministas e LGBTQIA+, produções culturais ou o próprio Estado. “Proteger as crianças” aparecem, nesse repertório, como preservar sua inocência e reafirmar a autoridade parental.
Ao mesmo tempo, essas mesmas crianças podem ser intensamente incorporadas à comunicação pública. Filhos aparecem em aniversários, viagens, celebrações religiosas e cenas domésticas. Outras crianças são abraçadas e fotografadas em escolas, igrejas, comunidades e eventos governamentais. A infância é, simultaneamente, objeto de proteção e recurso de comunicação. O ponto não é denunciar uma suposta hipocrisia automática. Essa acusação seria fácil, mas analiticamente pobre.
A pergunta mais produtiva é outra: quais formas de exposição são consideradas legítimas, por quem e a serviço de quais projetos políticos? A pesquisa sugere diferentes regimes de visibilidade. Quando a criança é filha da liderança, tende a aparecer individualizada: tem rosto, parentesco, rotina e lugar na biografia pública da mãe. Sua presença atesta valores como maternidade e família. Já quando ocupa o lugar de vítima de uma ameaça moral, frequentemente é desindividualizado: aparece borrada, de costas, em ilustrações, silhuetas ou representações genéricas.
Quanto menos singular ela é, mais facilmente pode representar “as crianças” como categoria universal. A criança concreta aproxima o público da liderança; a abstrata amplia o alcance de uma causa. Em ambos os casos, a infância funciona como atalho afetivo. Isso fica evidente quando controvérsias políticas são reorganizadas em termos morais. No debate sobre aborto, por exemplo, a presença de um bebê, de uma ultrassonografia ou mesmo de um boneco pode deslocar a discussão de temas como legislação, direitos reprodutivos e autonomia para uma oposição entre quem protege uma vida e quem supostamente a ameaça. Em pautas sobre gênero, sexualidade ou autoridade parental, processo semelhante pode ocorrer: o adversário deixa de ser apenas alguém que defende outra política e passa a ser apresentado como risco à infância.
A criança ameaçada, diferentemente da criança vulnerável, tende a produzir um antagonista. Uma criança com fome demanda comida; uma criança sem escola demanda política pública; uma criança com deficiência demanda inclusão. Nesses casos, a vulnerabilidade organiza uma gramática da necessidade. Já a ameaça exige identificar um responsável e perguntar quem está colocando essa criança em perigo. Essa passagem altera o conflito.
A política deixa de ser apenas disputa entre projetos e passa a estabelecer fronteiras morais entre protetores e ameaçadores, inocentes e corruptores, “nós” e “eles”. É por isso que a infância se tornou um recurso tão eficiente: poucas imagens carregam ao mesmo tempo tamanha capacidade de produzir afeto, urgência, autoridade e pertencimento.
Há também um efeito sobre a própria imagem das lideranças. Fotografias de colo, abraço, brincadeira e cuidado podem transferir atributos da relação com a criança para a política que aparece ao lado dela. Ternura, sensibilidade e proteção tornam-se qualidades visuais da personagem pública. Não é preciso afirmar “eu cuido”; a imagem faz esse trabalho. Isso não significa que toda presença infantil seja instrumentalização calculada.
A questão decisiva é observar quando retirar a criança da cena mudaria o argumento, o afeto ou a legitimidade da publicação. O debate público sobre exposição infantil nas redes costuma se concentrar na privacidade, no consentimento e no “sharenting”. Esses temas continuam centrais. Mas, quando a exposição ocorre em perfis de lideranças políticas, a imagem da criança não circula apenas como memória familiar.
Ela pode construir reputações, sustentar agendas e definir adversários. Perguntar “quem pode expor as crianças?” é, portanto, perguntar também quem pode falar em nome delas. Quem decide o que precisam aprender, quais valores devem receber, de que perigos precisam ser protegidas e quem será responsabilizado por esses perigos?
As disputas em torno da infância envolvem, portanto, concepções distintas sobre família, educação, religião e o papel do Estado. E talvez seja justamente por parecer situada fora da política que a imagem infantil tenha se tornado tão valiosa e possa funcionar como um de seus instrumentos mais poderosos.
O levantamento mencionado nesta reportagem integra a pesquisa “Radiografia das Mulheres Religiosas na Política”, aprovada no âmbito da Chamada Interna nº 01/2026 da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ). A pesquisa tem como objetivo produzir e sistematizar dados sobre a presença, a atuação e os perfis de mulheres vinculadas a diferentes tradições religiosas no campo político.
Como citar
ANTONINO, Maria Eduarda; MARSICANO, Ana Carolina. "A instrumentalização da infância na política brasileira". Religião e Poder, 08 set. 2026. Disponível em: . Acesso em: .
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