Quem é a católica que emerge como um dos principais rostos femininos da campanha de Flávio Bolsonaro
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Por Tabata Tesser
- 27 jul 2026
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Até poucos meses atrás, Daniella Marques era conhecida principalmente pelos corredores da Faria Lima e pelo mercado financeiro. Neste 26 de julho de 2026, no contexto da Convenção Nacional do Partido Liberal (PL), ela se colocou ao lado do candidato à Presidência da República indicado pelo partido, o senador Flávio Bolsonaro. Poucos dias antes da convenção eleitoral eles anunciaram, juntos em uma live, 12 medidas voltadas ao eleitorado feminino, iniciativa denominada Brasil Por Elas.
Administradora formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Daniella Marques construiu carreira no setor privado, tornou-se o braço direito do ministro da Economia do governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) Paulo Guedes e assumiu a presidência da Caixa Econômica Federal naquele mandato presidencial. Agora, retorna ao centro da política como uma das principais formuladoras do programa econômico da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, sendo apontada como possível ministra da Fazenda em um eventual governo ou até mesmo vice-presidente na chapa.
Porém sua atuação pública vai além da economia. Nos últimos meses, Daniella Marques tem investido na construção de uma imagem que combina credenciais técnicas e religiosidade católica com doses de protagonismo feminino liberal.
Embora seja filiada ao Republicanos – partido cuja base parlamentar e eleitoral é fortemente marcada pela presença de lideranças evangélicas –, a administradora se apresenta reiteradamente como católica praticante. Formada em instituições confessionais, costuma mencionar sua trajetória em colégios católicos e na PUC-Rio como parte de sua identidade pública. Em entrevistas, afirma que pretende matricular o filho em uma escola católica e associa essa escolha à defesa da “liberdade das famílias” para decidir a educação moral e religiosa dos filhos.
Nas redes digitais, essa identidade católica aparece de forma explícita. O perfil de Daniella Marques reúne referências frequentes à Virgem de Guadalupe, padroeira das Américas, associada ao discurso católico antiaborto. Também compartilha conteúdos relacionados às transmissões de oração conduzidas pelo Frei Gilson durante a madrugada, fenômeno que mobiliza milhões de católicos nas mídias sociais. Daniella Marques ainda participou de espaços de grande circulação entre católicos conservadores, como o podcast Santo Flow, ampliando sua inserção nesse universo religioso.
A trajetória da política também revela uma aproximação tipicamente católica (e portanto da elite) de setores do mercado financeiro com o conservadorismo religioso. Após deixar a presidência Caixa, tornou-se chairwoman e sócia da Legend Capital, holding dedicada à gestão de patrimônio e investimentos com foco nas mulheres (endinheiradas & empreendedoras). A empresa reúne nomes como o ex-ministro Paulo Guedes, que é integrante do conselho e acionista, e o empresário midiático Roberto Justus, entre seus sócios e conselheiros.
Ainda na presidência da Caixa, Daniella Marques lançou o programa Brasil para Elas, voltado à capacitação profissional e inclusão financeira de mulheres em situação de vulnerabilidade. Já na Legend Capital criou o Legend Women Experience, iniciativa destinada a mulheres de alta renda interessadas em investimentos e gestão patrimonial. A administradora também passou a integrar o conselho executivo da empresa no momento em que a ex-modelo e apresentadora Ana Hickmann anunciou sua entrada como sócia da instituição, depois de ter sofrido violência doméstica e se separado do marido.
Neste momento, Daniella Marques procura construir uma agenda voltada às mulheres para superar o calcanhar de Aquiles de Flávio Bolsonaro: o eleitorado feminino.
Essa agenda feminina de corte elitista, entretanto, faz parte de um diagnóstico específico. Em pronunciamentos públicos, Daniella Marques sustenta que a autonomia econômica e o empreendedorismo feminino constituem os principais instrumentos para enfrentar desigualdades e até situações de violência contra as mulheres. Em vez de abordar relações estruturais de desigualdade de gênero ou mecanismos institucionais de discriminação, sua formulação concentra-se na ampliação do acesso ao crédito, da educação financeira e da capacidade individual de geração de renda.
Essa perspectiva aproxima sua atuação de uma concepção frequentemente associada ao feminismo liberal tipicamente católico, que privilegia instrumentos de mercado como caminhos limitantes para a promoção da “igualdade de gênero”. Nessa abordagem, a superação das desigualdades ocorre prioritariamente por meio da inclusão econômica das mulheres, diferentemente de perspectivas feministas que enfatizam transformações nas relações sociais, políticas, religiosas e culturais que produzem a dominação masculina e o capitalismo.
A entrada de Daniella Marques na campanha de Flávio Bolsonaro também amplia a atuação dela para além da economia. Em um dos eventos de lançamento da pré-campanha, ela havia afirmado que pretende enfrentar o que chamou de “economia do cuidado”, indicando disposição para disputar debates sobre políticas voltadas às mulheres e às famílias. A chamada “Economia do Cuidado” é uma linha teórica fortemente associada aos feminismos. Paralelamente, a política tem defendido a pauta da liberdade educacional, afirmando que as famílias devem ter o direito de escolher a formação moral e religiosa dos filhos, tema recorrente entre organizações católicas e evangélicas conservadoras.
Daniella Marques representa uma combinação relativamente nova no interior da direita radical, ou, do chamado bolsonarismo. Reúne legitimidade técnica junto ao mercado financeiro, experiência na formulação econômica do governo de Jair Bolsonaro e uma identidade católica explicitamente assumida num país de maioria católica.
Será ela capaz de dialogar com segmentos religiosos que historicamente tiveram na evangélica Michelle Bolsonaro a principal referência feminina-cristã-conservadora do país e que hoje encontra-se num vácuo político? Não é possível responder esta questão agora, mas, por certo, será preciso problematizar, cada vez mais, as formas mais atuais do conservadorismo feminino ativado por mulheres católicas da elite.
Como citar
TESSER, Tabata. "Quem é a católica que emerge como um dos principais rostos femininos da campanha de Flávio Bolsonaro". Religião e Poder, 27 jul. 2026. Disponível em: . Acesso em: .



