Ser católico está no hype?

Créditos da Imagem: Vatican City – Roblox. Reprodução: Youtube.

Tabata Pastore Tesser

Por Tabata Pastore Tesser

  • 30 abr 2026
  • 9 min de leitura
Ser católico está no hype?
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No início de 2026, o noticiário chamou a atenção para o aumento de adultos que estão se convertendo ao catolicismo nos Estados Unidos, na Europa e na África. Será que, depois do primeiro conclave instagramável e em uma cultura totalmente atravessada pela midiatização da religião nas redes digitais, estaríamos vivendo uma onda de conversão ao catolicismo? Ou, como é comum expressar nos espaços midiáticos: ser católico está no hype (virou tendência, sucesso, se tornou muito popular)? Neste artigo apresentamos três explicações possíveis sobre esse fenômeno.  

Primeira explicação: a dimensão ideológica e política, sobretudo no aumento de conversões nos Estados Unidos

A Igreja Católica nos Estados Unidos está tentando entender a onda de conversão ao catolicismo que o país está vivendo. Naquele país, assim como no Brasil, a religião continua sendo um elemento central da disputa pública. E isso ajuda a explicar por que o catolicismo ganhou uma nova visibilidade.

O caso mais emblemático nos Estados Unidos é o do atual vice-presidente dos país J. D. Vance. O político, que frequentava uma igreja pentecostal não nomeada por ele, se converteu ao catolicismo em 2019 e anunciou o lançamento de um livro sobre o seu testemunho de conversão católica. Isso importa não só por ser um relato de uma trajetória pessoal, mas porque a conversão dele funciona como sinal político dentro do conservadorismo norte-americano.

A base eleitoral mais organizada da direita americana trumpista continua sendo fortemente evangélica. Porém sempre houve nela um espaço específico para uma referência católica conservadora mais nítida, especialmente ligada aos grupos pró-vida (como Human Life International – HLI), e grupos familistas, ultratradicionalistas que visam a restauração cristandade católica.

Em outras palavras: nos Estados Unidos, a conversão ao catolicismo também pode funcionar como reposicionamento ideológico frente ao desgaste de Trump com a geopolítica internacional. Ao mesmo tempo, se dá no contexto das repreensões ao presidente estadunidense que o Papa Leão XIV tem mencionado, durante o Angelus, aos domingos (momento de oração na Praça de São Pedro), ao tratar sobre a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

Segunda explicação: a dimensão teológica e eclesial

Fato é que seria pouco dizer que tudo isso é política. Existe também uma dimensão teológica e pastoral importante desse fenômeno. O catolicismo mundial está desenvolvendo neste momento a chamada “catequese primária” com foco nos adultos. Leão XIV dedicou catequeses recentes à Lumen Gentium (Luz dos Povos), um documento resultante do Concílio do Vaticano II que trata da natureza e da missão da Igreja Católica e do papel dos leigos.

Outro exemplo da dimensão teológica é que o Vaticano realizou um Jubileu voltado aos Catequistas, em setembro de 2025, incentivando a catequese e a conversão de adultos. Há ainda uma ação do Vaticano que pode estar impactando novas conversões e essa pessoa, ou melhor, santo se chama Carlo Acutis.

Carlo Acutis ficou conhecido como “santo da internet”, “Padroeiro da Internet” ou “Influenciador de Deus”. Tornou-se conhecido como o santo dos millennials, da geração. Morto aos 15 anos por conta de uma leucemia, Carlo Acutis (1991–2006) foi um adolescente católico anglo-italiano, canonizado em 7 de setembro de 2025, por sua fé, caridade e vida jovem comum. Ele se notabilizou por ter utilizado suas habilidades em informática para catalogar milagres eucarísticos online. Um jovem de Londres ligado à internet, à tecnologia e à evangelização digital. O santo Carlo Acutis rompe com a ideia de que o catolicismo é apenas coisa do passado. Não por acaso, ele se tornou uma espécie de ponte entre a tradição e a cultura digital. 

Terceira explicação: a dimensão midiática e digital

É aqui que chegamos em uma terceira explicação possível do catolicismo como hype, em dimensão midiática. As cantoras Rosalía e Madonna e o filme ‘Conclave’ mostram ao mundo como a cultura pop é fascinada pelo catolicismo, justamente por apresentar uma forma disciplinar e uma relação entre o profano e sagrado, a vida monástica, celibatária e a tentação. Portanto, sim, a cultura pop se inspira no catolicismo. Porém não se trata apenas de cantores, bandas, filmes. Hoje existe um ecossistema digital do catolicismo nas redes sociais. 

Esse ecossistema foi acionado quando o presidente Donald Trump, no domingo, 12 de abril, utilizou seus perfis em redes digitais para contestar a liderança e a legitimidade do Papa Leão XIV e o chamou de “fraco”. Horas depois, Trump fez nova publicação: uma imagem gerada por inteligência artificial na qual assume a persona de Jesus, supostamente abençoando um doente em uma cama com pessoas brancas atrás. Diferentes grupos, políticos e lideranças globais questionaram a fala de Trump. No Brasil, influenciadores e perfis tradicionalmente ligados ao conservadorismo católico, como Bernardo Kuster, Lixeira Católica e o vereador do PL na cidade São Paulo Fernando Holiday, condenaram a fala de Trump. No entanto, a marca dessa corrente na esfera digital (com várias personagens manifestando apoio à estratégia de comunicação estadunidense, diga-se) segue online e com ampla circulação.   

É possível identificar uma visível expansão de influenciadores católicos tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Associações católicas, editoras católicas independentes, mentores religiosos, podcasts funcionam como reels de conversão, ao demonstrarem rotinas de oração, conteúdo de estética litúrgica, humor católico e experiências digitais desse catolicismo de evangelização digital. Até mesmo na plataforma de jogos on line  Roblox há iniciativas católicas voltadas à formação e ao contato com crianças e adolescentes.

Outros exemplos: o Vaticano promoveu em julho de 2025 o Jubileu de Missionários Digitais e dos Influenciadores Católicos, do qual participaram diversos influenciadores brasileiros. No Brasil, a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) realizou, em outubro de 2025,  um encontro que reuniu três padres midiáticos – Paulo Ricardo, Frei Gilson, identificados como conservadores, e Júlio Lancellotti, reconhecido como progressista – para tratar sobre o papel dos sacerdotes na cultura digital. A campanha “Como é Lindo Ser Católico”, muito difundida nas redes digitais, de iniciativa do Padre Paulo Ricardo, celebra a beleza, a tradição, a Eucaristia e a riqueza teológica da Igreja Católica. Por outro lado, essa ideia de que o “catolicismo” está relacionado a beleza também demarca um discurso de que outras religiões seriam “feias”, em um discurso que pode soar intolerante.

Portanto, sim, existe uma nova visibilidade católica e a própria igreja está lidando com ela. Só que isso não significa automaticamente crescimento uniforme do catolicismo, mas significa que ele reaprendeu a circular midiaticamente, a se narrar e a disputar a economia da atenção dos fiéis no ambiente digital. 

Estamos assistindo a uma mudança?

No Brasil, a resposta mais honesta hoje sobre possível alta conversão é: ainda não sabemos. Não encontramos até agora um dado nacional da CNBB ou até mesmo do Censo, que confirme um aumento geral de conversões adultas como o que tem sido noticiado em dioceses dos Estados Unidos e da Europa. O que existem são sinais localizados: há políticos de esquerda se dizendo católicos, como o deputado estadual do PSOL-SP Guilherme Cortez; políticos de direita se convertento ao catolicismo, como o vereador de São Paulo, suplente do União Brasil, Douglas Garcia; e diversos posts de jovens e adultos com relatos nas redes, especialmente depois da Páscoa, falando do primeiro batismo, da primeira comunhão ou de um retorno à Igreja Católica.

Isso pode apontar para alguma mudança no Brasil? É possível, porém ainda precisa ser apurado com mais cuidado. O Censo 2022 e as análises da CNBB seguem mostrando tendência ampla de declínio católico no Brasil no longo prazo. Aqui, talvez a hipótese mais interessante não seja uma explosão de conversões inéditas, mas movimentos de retorno, de reaproximação ou de trânsito religioso.  Nesse caso, até de pessoas que passaram por igrejas evangélicas e voltam ao catolicismo em busca de estabilidade litúrgica e por uma experiência religiosa menos capturada pela lógica do “palanque político”, ainda mais no contexto do bolsonarismo. Tudo isto ainda são hipóteses. Vale destacar que nem toda religião que “viraliza” nas redes sociais está crescendo de forma estrutural. E nem sempre uma conversão nasce de uma moda. Às vezes ela nasce de crise, da busca de sentido, pertencimento, de apreço estético ou até mesmo de uma experiência íntima espiritual.

A questão não é apenas se está no hype ser católico. A questão é: por que, em um tempo de instabilidade, de neoliberalismo, de fragmentação e de excesso de estímulo, jovens e adultos estão procurando por tradições religiosas hierárquicas? Então, mais do que perguntar se ser católico virou hype, talvez a pergunta certa seja outra: que tipo de catolicismo está ganhando visibilidade agora, e por quê?

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