Reconhecemos que a mudança climática afeta as nossas vidas, mas ainda não votamos em quem se compromete com a pauta
Imagem gerada por inteligência artificial.
Por Sharah Luciano
- 06 nov 2026
- 7 min de leitura

Nos últimos anos diversas pesquisas têm comprovado a premissa de que a população brasileira se importa com as questões ambientais, se percebe afetada pelas mudanças no clima e compreende que é possível conciliar preservação ambiental com bem-estar. Em “Religião e vida pública no Brasil (2026)”, pesquisa realizada pelo ISER em parceria com a Quaest, 15 mil pessoas foram ouvidas no período de 14 de janeiro até 10 de fevereiro de 2026, em 412 cidades das 5 regiões do Brasil. Os dados apurados sobre meio ambiente revelaram que 82 % dos brasileiros acreditam que as mudanças climáticas são resultado das ações humanas e 95% concordam que leis ambientais são importantes para proteger o planeta. Já na pesquisa do Ipec e Greenpeace Brasil, de 2024, apurou-se que 71% dos brasileiros com 16 anos ou mais estão preocupados ou muito preocupados com as mudanças climáticas, 45% dos entrevistados apontaram a redução da poluição como uma das soluções para enfrentar as mudanças no climáticas e 37% disseram ser importante combater os desastres ambientais.
A preocupação reflete no voto?
Considerando a alta preocupação da população com as questões ambientais, não seria equivocado supor que essas aflições fossem refletidas nas escolhas durante os pleitos eleitorais, uma vez que a gestão do enfrentamento direto da crise climática e a maior parte dos recursos e meios para isso fica condicionado à ação dos representantes políticos eleitos, tanto do executivo quanto legislativo. No entanto, nas eleições de 2026, em que estavam em disputa os cargos da presidência da República, senado, legislativo federal, estadual e distrital, governo e legislativo estadual, após o primeiro turno, o saldo das candidaturas eleitas apontou para uma direção contrária à preservação ambiental. Tomando por exemplo a esfera federal com relação às candidaturas eleitas para o senado e câmara dos deputados, o cenário formado é de grande atenção. De acordo com levantamento feito pelo GT Congresso, da organização da sociedade civil Observatório do Clima, o congresso eleito para a 58° legislatura (2027 – 2030) pode ser hostil à pauta climática. Segundo o estudo, 68,9% dos parlamentares apresentam baixa convergência às pautas ambientais.
A responsabilidade do legislativo federal e a pauta ambiental
O legislativo federal é formado pela Câmara dos Deputados e Senado, juntas, essas duas casas formam o Congresso Nacional, que tem como funções principais: criar leis, fiscalizar o executivo federal e participar da elaboração do orçamento da União. A Câmara é composta por 513 deputados, que além das suas atribuições principais podem também fortalecer a participação popular através do chamamento de audiências públicas, no diálogo sobre temas relevantes à sociedade e no encaminhamento de projetos oriundos da iniciativa popular. É também atribuição exclusiva da Câmara definir a abertura ou não de processo de impeachment contra o presidente da República. Os deputados e deputadas representam o povo dos seus estados, podendo cada estado e distrito federal eleger de 8 a 70 representantes, a depender do quantitativo populacional de cada ente da federação. Já o Senado Federal, é composto por 81 senadores e senadoras, sendo 3 representantes eleitos por estado e do distrito federal. São tarefas exclusivas do Senado aprovar indicações do presidente da República a cargos, processar e julgar autoridades com relação a crimes de responsabilidade e deliberar sobre questões financeiras, como empréstimos à municípios, estados e Distrito Federal. Todas essas atribuições das duas casas estão estritamente ligadas a pautas essenciais, como a ambiental. A chefia do executivo federal, a presidência da República, por sua vez tem como responsabilidades representar o país interna e externamente, propor medidas provisórias, vetar parcial ou integralmente leis que foram aprovadas pelo congresso, nomear ministros e embaixadores, criar ou extinguir cargos públicos ou ministérios, criar políticas e programas governamentais entre outras. Assim, o não alinhamento desses representantes com a pauta ambiental tem consequências diretas no enfraquecimento ou extinção de legislação de proteção ao meio ambiente, orçamento para políticas públicas de prevenção a desastres e os desdobramentos deles em áreas essenciais como saúde, educação e habitação, combate ao desmatamento e outros crimes ambientais. Além disso, a presidência da República tem um papel crucial, pois essa figura dá também o “tom” interna e externamente com relação a postura do governo sobre o tema.
Como explicar essa desconexão entre preocupação e voto?
Apesar da preocupação ambiental da população não se refletir diretamente no voto, vide a composição do congresso, é importante buscar compreender os motivos dessa desconexão. Os problemas socioambientais reconhecidamente afetam diversos setores e todas pessoas, ainda que de maneiras distintas, a depender de fatores como classe social, raça etc. No entanto, diante de diversas urgências sociais causadas por uma sociedade capitalista e desigual, preocupações com emprego, renda, alimentação e saúde acabam saltando à frente na hora de se considerar em quem votar, ainda que meio ambiente e clima afetem profundamente todas essas questões e que os representantes eleitos com alinhamento mais consevador e alinhados à extrema direita não necessariamente apresentem de fato propostas reais para solucionar esses problemas. Um outro ponto a se considerar é o distanciamento que a maioria da população nutre com a política para além da votação e a descrença no sistema representativo. Além disso, a decisão sobre em quem se depositará o voto é movida por muitos outros afetos que dizem respeito à convicções morais, visões de mundo e pertencimentos diversos.
Caminhos possíveis
Permanecem mais perguntas do que respostas, pois se de fato a nossa sociedade brasileira já compreendeu que às questões socioambientais afetam diretamente nossa vida, o que precisamos fazer para que essa angústia se reverta em engajamento? A solução perfeita para esse questionamento não existe, mas caminhos que podem orientar nessa direção, sim. É preciso salientar para as pessoas que o voto delas pode ajudar a materializar ou dissolver as políticas públicas que poderiam resolver ou ao menos mitigar os problemas que afetam a vida delas. Uma das maneiras de promover esse entendimento é através de formações e mobilizações de base que busquem explicitar as competências e atribuições de cada cargo político e como promover ação climática a partir disso é vital para preservar vidas, patrimônios e o funcionamento dos territórios. O desenvolvimento de consciência crítica, através do estímulo ao debate amplo e qualificado referente a temas de interesse social, leva tempo, mas é o que torna possível o engajamento efetivo e melhores escolhas políticas.
Referências
Congresso Nacional (2026). Atribuições.
Senado Federal (2026). Atribuições.
Amanda Louise Lima Silva, Danniel Figueiredo (2026). Poder Legislativo. Politize
Bruno André Blume (2016). Câmara e Senado: qual a diferença? Politize
Agência Câmara. (2022). Conheça o papel do poder legislativo. Câmara dos deputados.
Yasmim Rodrigues (2026). Conheça o papel e as atribuições exclusivas dos senadores — Rádio Senado
Redação O Eco (2026). Como o Congresso eleito deve lidar com o meio ambiente – Nexo Jornal
Carla Meireles (2026). O que faz um presidente da República? Politize
Como citar
LUCIANO, Sharah. "Reconhecemos que a mudança climática afeta as nossas vidas, mas ainda não votamos em quem se compromete com a pauta ". Religião e Poder, 06 nov. 2026. Disponível em: . Acesso em: .
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