Quando crianças pensam em eleições, o que vem à cabeça? 

Laryssa OwsianyFlávio Carvalhaes

Por Laryssa Owsiany e Flávio Carvalhaes

  • 25 set 2026
  • 4 min de leitura
Quando crianças pensam em eleições, o que vem à cabeça? 
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Como parte do projeto de pesquisa do ISER sobre o acionamento da pauta da Educação como campo de disputa na relação religião e política, no início de 2026, foi estabelecida uma parceria de pesquisa com a Equidade.Info. Trata-se de uma iniciativa sem fins lucrativos e a maior plataforma brasileira de escuta de estudantes, professores e gestores escolares, que reúne a única amostra de escolas representativas do Ensino Básico brasileiro.

A colaboração tem como objetivo a elaboração e aplicação de questionários sobre religião, política e educação, permitindo ao ISER produzir novos dados sobre como esses temas atravessam as experiências de estudantes, docentes e gestores das redes pública e privada, em todas as regiões do Brasil. Os resultados aqui apresentados constituem apenas o primeiro passo de uma agenda de pesquisa mais ampla. 

No total, 1.751 estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental foram perguntados se sabiam o que é uma eleição. Pouco mais de um terço (618, ou 35%) respondeu que sim, um resultado esperado para crianças dessa faixa etária, que ainda estão longe da idade de votar e para quem “eleição” é um conceito abstrato, pouco presente no seu cotidiano. Entre os que disseram saber, 610 escreveram espontaneamente até cinco palavras sobre o que “eleições” significa para eles, resultando em 605 respostas válidas para análise. 


As associações mais frequentes foram voto (349 ocorrências; 338 respondentes), presidente (178), prefeito (173), política (83), Lula (62) e Bolsonaro (52).

A nuvem mostra que, para as crianças que dizem saber o que é uma eleição, o conceito é antes de tudo procedimental: eleição é votar. “Voto” aparece para 338 dos 605 respondentes válidos (cerca de 56%), bem à frente de qualquer outro termo. Em segundo plano vêm os cargos, com clara predominância do Executivo (presidente, prefeito, governador) sobre o Legislativo (vereador e deputado aparecem, mas senador é marginal). 

A política também chega às crianças de forma personalizada. Lula e Bolsonaro são os únicos nomes próprios com peso na nuvem, sinal de que a polarização política brasileira deixou marca no repertório infantil. Há ainda um vocabulário da materialidade da campanha (urna, santinho, adesivo, bandeira, carreata, panfleto, propaganda), que sugere que a eleição é vivida pelo que se vê na rua e em casa. 

Duas ressalvas merecem ficar explícitas: A primeira é que a nuvem descreve apenas quem respondeu “sim” (618 de 1.751, cerca de 35%), ou seja, não representa o entendimento do conjunto dos alunos. A segunda é que ela mede frequência de associação, não opinião nem preferência política; a presença de Lula e Bolsonaro, por exemplo, não indica  apoio a nenhum dos dois.

Termos normativos ou abstratos, como democracia, direito, escolha e futuro, estão presentes, mas em posição secundária, assim como associações negativas (roubo, corrupção, briga), que aparecem, mas com baixa frequência.

Mais do que um retrato do quanto as crianças sabem sobre política, esses resultados mostram como a política chega até elas, quando chega. Antes de votar, antes mesmo de compreender as regras do jogo democrático, as crianças já funcionam como uma caixa de ressonância do ambiente em que vivem. Elas absorvem o que se diz em casa, o que circula na escola, o que aparece na televisão e nas redes, o que se vê nas ruas em época de campanha. O voto, os cargos, os nomes dos candidatos, a urna e o santinho compõem um repertório que não foi ensinado formalmente, mas aprendido na convivência. 

Ouvir as crianças é, por isso, uma forma de entender a eleição para além do momento do voto, como um acontecimento social que atravessa famílias, escolas e comunidades e deixa marcas em quem ainda não participa dela diretamente. É também uma maneira de observar, desde cedo, como se formam as primeiras percepções sobre a democracia que essas crianças carregarão para a vida adulta.

O que estes alunos e alunas do ensino fundamental I nos dizem é revelador: para a maioria, democracia é sobretudo o ato de votar, enquanto ideias como direitos, escolha e participação aparecem de forma tímida. Uma democracia se sustenta também na forma como cada nova geração aprende a entendê-la e a valorizá-la, e a infância é o momento em que esse aprendizado começa. Por isso, o que chega às crianças sobre a política importa, e a escola, como espaço de convivência plural, tem papel central em ampliar essa compreensão para além da urna. 

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