A eleição dos “valores cristãos”: ISER levanta a identidade religiosa do Congresso Nacional

Foto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil

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Por ISER

  • 05 nov 2026
  • 10 min de leitura
A eleição dos “valores cristãos”: ISER levanta a identidade religiosa do Congresso Nacional
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Passada a eleição, ganhou força no noticiário a leitura de que a bancada evangélica encolheu porque grandes líderes de igrejas fracassaram nas urnas e não conseguiram se reeleger, o que é um fato. O bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) Marcelo Crivella, ex-senador, ex-prefeito do Rio de Janeiro e ex-deputado sobrinho de Edir Macedo, não conquistou a vaga no Senado pelo Republicanos-RJ; nenhum dos quatro filhos do missionário da Igreja Internacional da Graça de Deus R. R. Soares foi eleito; quatro influentes deputados pastores das Assembleias de Deus Cezinha de Madureira (PL-SP) e Silas Câmara (Republicanos-AM), Gilberto Nascimento (PSC-SP) e Eli Borges (PL-TO) perderam as cadeiras.

“A conclusão implícita de que evangélicos teriam perdido peso na política brasileira é sedutora”, afirma a antropóloga Lívia Reis, coordenadora da área de Religião e Política do ISER. “O que mudou não foi o peso da religião, mas a forma como ela circula na disputa eleitoral e o modo como a própria política passou a se apropriar da gramática, dos símbolos e das performances religiosas.”

Os dados que o ISER levantou expõem esta outra perspectiva. Católicos, evangélicos e cristãos sem denominação somam 84% da Câmara dos Deputados e 95% do Senado eleitos para a legislatura que começa em 2027. A seguir os destaques do perfil religioso dos eleitos em 4 de outubro para o Congresso Nacional,  levantados pela equipe de Religião e Política do ISER.

Os números gerais

Entre os 513 deputados eleitos, há 270 católicos (52,6%), 97 evangélicos (18,9%) e 64 cristãos (12,5%); outros 68 (13,3%) não tiveram identidade religiosa identificada e seis os eleitos não tem religião. As demais tradições somam 14 deputados (2,7%): três afrorreligiosos, dois de múltipla pertença, um espírita, um de espiritualidades indígenas e um judeu. 


O Senado passa a ter a seguinte composição: 58 católicos (71,6%), 15 evangélicos (18,5%) e quatro cristãos sem denominação, além de dois judeus e dois senadores sem identidade religiosa identificada. 

Evangélicos na Câmara: mesmo número mais renovação

Entre os 513 deputados eleitos para 2027-2031, 97 são evangélicos (18,9%), enquanto nesta 57ª Legislatura que chega ao fim são 94 (18,3%), ou seja, após as eleições, o grupo se constituiu em torno do mesmo patamar numérico. Porém, a renovação agora é um destaque: 34 dos 97 evangélicos estão entre os 209 estreantes, cerca de 43%.

A elite da bancada evangélica se reelegeu quase inteiramente. Os pastores assembleianos do PL Sóstenes Cavalcante (RJ) e Paulo Freire (SP), apoiados pelos líderes da igreja Silas Malafaia e José Wellington permanecem na Câmara Federal, assim como os também assembleianos Marco Feliciano (PL-SP), Jefferson Campos (PL-SP), Lincoln Portela (PL-MG) e o bispo da IURD Marcos Pereira, presidente do Republicanos, de São Paulo.

O Republicanos, partido historicamente ligado à IURD, reflete a mudança. O partido passou de 40 para 41 deputados e conquistou os governos de São Paulo e de Minas Gerais, mas entre seus eleitos os católicos (18) já superam os evangélicos (14), e ao menos 13 evangélicos que ocupavam cadeiras pela legenda não voltam. Já o PL, maior bancada da Câmara Federal, com 121 deputados, concentra 42 dos 97 evangélicos. Somados, os dois partidos têm 56 dos evangélicos eleitos.

Católicos: maioria nas duas Casas

Os católicos são o maior grupo do Congresso e estão presentes em todo o espectro partidário. Na Câmara, os 270 deputados católicos vão do PL (47), que elegeu mais católicos do que evangélicos (42), ao PT (43), passando por PSD (30), MDB (30 dos 36 eleitos), União e PP (23 cada). O peso é maior no Nordeste, onde são 64,2% dos eleitos, e no Sul (54,5%). Católicos são também o grupo com maior continuidade: 169 dos 270 (62,6%) são reeleitos. 

No Senado, os católicos ocupam 58 das 81 cadeiras e são 28 dos 40 estreantes (70%). O PL concentra 17 senadores católicos. Lívia Reis chama atenção para esse grupo, “inclusive para mulheres católicas e conservadoras como Júlia Zanatta e Bia Kicis”. A convergência ficou visível no 7 de Setembro, na Avenida Paulista: enquanto Silas Malafaia e a bispa Sonia Hernandes pediam orações pelo ministro André Mendonça, grupos ligados à Igreja Católica distribuíam camisetas com a frase “Força, Mendonça”. Como observa a antropóloga Brenda Carranza, citada por Lívia, católicos e evangélicos conservadores convergem, e as lideranças passam a defender valores a serem verbalizados por políticos, mais do que a eleger candidatos da própria igreja.

O ISER cruzou as listas de membros das Frentes Parlamentares Evangélica (FPE) e Católica (FPC) da atual legislatura com os eleitos de 2026. Dos 232 integrantes da FPE localizados na base, 129 (55,6%) permanecem na Câmara Federal, proporção semelhante à da FPC (120 de 221, ou 54,3%) e à da renovação geral da Casa, em que 55,8% dos eleitos já tinham mandato.

O perfil de quem permanece é revelador. Entre os 126 reeleitos da FPE, 55 são católicos (43,7%), 45 evangélicos (35,7%) e 19 cristãos sem denominação (15,1%). Na FPC, são 77 católicos e 17 evangélicos.  Entre os reeleitos, 67 integravam as duas frentes.

Senado: mais católicos. Estreantes são mais evangélicos

Na nova composição do Senado para 2027-2031, católicos ocupam 58 das 81 cadeiras (71,6%) e evangélicos, 15 (18,5%). Somados aos que se apresentam como cristãos, são 95% da Casa. A presença evangélica é maior entre os 40 senadores que chegam pela primeira vez: 22,5%, acima da média de 18,5% da Casa, entre eles Michelle Bolsonaro (PL-DF), Carlos Jordy (PL-RJ) e Samanda de Lula (PT-RN).

Ao menos 19 deputados federais eleitos em 2022 trocam a Câmara pelo Senado: dez deles são do PL e 13 são católicos: Alexandre Guimarães (MDB-TO), Arthur Lira (PP-AL), Bia Kicis (PL-DF), Carol de Toni (PL-SC), Domingos Sávio (PL-MG), Evair de Melo (Republicanos-ES), Fufuca (PP-MA), Guilherme Derrite (PP-SP), Gustavo Gayer (PL-GO), Júlio César (PSD-PI), Luizianne Lins (Rede-CE), Nicoletti (PL-RR) e Sanderson (PL-RS). Seis são evangélicos: Carlos Jordy (PL-RJ), Deltan Dallagnol (Novo-PR), Fernando Máximo (PL-RO), Filipe Barros (PL-PR), Marcel van Hattem (Novo-RS) e Zé Medeiros (PL-MT). 

O deputado cassado em 2023 Deltan Dallagnol (Novo-PR) conquistou uma vaga como senador, depois que teve a candidatura validada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Paraná, às vésperas das eleições. Porém,  a federação PT-PCdoB-PV e o PDT recorreram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar restabelecer o impedimento reconhecido em 2023, o que tem parecer favorável do relator do processo que está por ser julgado pelo plenário da Corte.  

Da patente ao “valor cristão”

Os nomes de urna com “pastor”, “padre”, “irmão” ou “missionária” vêm caindo sistematicamente: em 2026, foram quatro entre os 513 deputados eleitos, incluindo o Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), Pastor Marco Feliciano (PL-SP), Pastor Sargento Isidório (Avante-BA), Padre João (PT-MG). Em contrapartida, 36 deputados levam à urna a patente de coronel, delegado, sargento, capitão ou major, e 30 deles são católicos, evangélicos ou cristãos que se apresentam como defensores dos valores cristãos.

“O título religioso tornou-se tão desnecessário na mobilização dos discursos e símbolos religiosos como a vinculação a uma igreja específica”, avalia Lívia Reis. “Basta sinalizar ao eleitor a adesão a ‘valores cristãos’ e à defesa da família, o que nos obriga a olhar também para os católicos.”

A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil (ISER/Quaest) ajuda a entender o movimento. Nove em cada dez brasileiros discordam de campanhas dentro de igrejas, e a recusa não varia por religião. Ainda assim, 22% dos evangélicos relatam que a liderança de sua comunidade recomendou voto em Bolsonaro no segundo turno de 2022. Para Lívia, “não se trata de o pastor mandar e o fiel obedecer”: a influência passa pela produção de um repertório moral e comunitário, e a recomendação só funciona quando coincide com ele.

Esse cristianismo difuso tem seus motores. Michelle Bolsonaro e a senadora Damares Alves (PL-DF) mobilizam há anos as estruturas das igrejas para levar mulheres à política. Nas redes, cresce uma geração de influenciadores que se apresentam como cristãos de maneira ampla, como Nikolas Ferreira (PL-MG), de novo o deputado mais votado do país, com 3,1 milhões de votos, e Lucas Pavanato (PL-SP), eleito com 3 milhões.

Direita concentra evangélicos

Pela classificação usual dos partidos, a direita (PL, União, PP, Republicanos, Novo e Missão) elegeu 260 dos 513 deputados (50,7%). O centro (PSD, MDB, Podemos, PSDB/Cidadania, Solidariedade/PRD e Avante) ficou com 129 (25,1%), e a esquerda (federação PT-PCdoB-PV,  PSOL, Rede, PSB e PDT), com 124 (24,2%). No Senado, o desequilíbrio é maior: 49 das 81 cadeiras (60,5%) estão com a direita, 16 com o centro e 16 com a esquerda.

A presença religiosa acompanha esse desenho. Só nos quatro maiores partidos de direita (PL, União, PP e Republicanos) estão 70 dos 97 deputados evangélicos (72%) e 111 dos 270 católicos (41%). PT, PSB e PSOL, que somam 99 deputados, têm 56 católicos e apenas seis evangélicos; é nesse campo que está, proporcionalmente, a maior parte dos deputados sem identidade religiosa identificada (23) e de outras tradições (9). 

Para a Câmara, foram eleitos sete evangélicos alinhados à esquerda (7,2% dos eleitos neste grupo religioso). São: Camila Jara (PT-MS), Fabiano Horta (PT-RJ), Rubens Pereira Jr. (PT-MA), Andréia Siqueira (PSB-PA), Jonas Donizette (PSB-SP), Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) e André Janones (Rede-MG).

No Senado, 14 dos 15 evangélicos eleitos são de partidos de direita, e a exceção é Samanda de Lula (PT-RN). Os católicos se dividem: 30 à direita, 14 no centro e 14 à esquerda.

Radicalização e perda de mediação

Para a coordenadora da área de Religião e Política do ISER, essa recomposição acompanha a radicalização dos partidos à direita. “Se os líderes de igreja perderam espaço, não foi para candidatos menos religiosos, e sim para candidatos que mobilizam um cristianismo mais difuso, desvinculado das grandes igrejas, e mais radical em suas pautas”. A IURD, que apoiou Bolsonaro em 2018 e 2022, manteve distância da disputa presidencial deste ano e viu seus candidatos ficarem pelo caminho na onda bolsonarista das eleições proporcionais.

O campo não é homogêneo. Damares Alves, que até pouco tempo representava o extremo conservador, passou a se distanciar da chamada “ala olavista”, movida por uma agenda “anti-woke”, antifeminista e antitrans, e agora se reposiciona como moderada.

Lívia Reis aponta o que considera a pergunta mais incômoda. As lideranças de igrejas, com todos os seus interesses, também funcionavam como mediadoras: negociavam e respondiam a uma comunidade e a uma instituição. Quando perdem espaço para influenciadores que falam direto a seguidores, com sucesso medido em engajamento, perde-se essa camada. 

“A democracia depende de que as divergências possam ser negociadas, e a negociação exige alguém que responda pelo que diz”, afirma Lívia Reis. “O que o Congresso eleito anuncia não é uma política mais religiosa nem menos religiosa. É uma política em que a fé circula com mais força do que nunca, e cada vez menos gente pode ser cobrada por aquilo que faz com ela”.

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