O que os dados sobre a Frente Parlamentar Evangélica nos ensinam sobre Religião e Política

Foto: Culto de Santa Ceia da Frente Parlamentar Evangélica, 2022

Por: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Matheus Cavalcanti PestanaLaryssa Owsiany

Por Matheus Cavalcanti Pestana e Laryssa Owsiany

  • 17 set 2026
  • 10 min de leitura
O que os dados sobre a Frente Parlamentar Evangélica nos ensinam sobre Religião e Política
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A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, na 57ª Legislatura, tem 232 membros, dos quais uma parcela expressiva não é evangélica: 88 são católicos e 99 são evangélicos. Dos 45 restantes, 15 se declaram apenas “cristãos”, sem especificar a denominação religiosa, ou estão entre os parlamentares cuja religião não foi possível identificar. Assim, na frente que carrega “evangélica” no próprio nome, os católicos representam uma parcela significativa: quase quatro em cada dez integrantes. 

O dado contraria a intuição até que se entenda o que, tecnicamente, é uma frente parlamentar. Desde 2005 a Câmara autoriza a criação desses grupos mediante um terço de assinaturas do total de deputados e a indicação de um representante, o que é uma burocracia, e concede estrutura para funcionamento e reuniões. Uma bancada é outra coisa: um agrupamento informal, uma articulação, sem estatuto e sem lista oficial, que existe a partir da uma afinidade na defesa de pautas.

Frente é documento assinado; bancada é articulação e hábito de voto consolidados ao longo do tempo. No que tange às abordagens na imprensa e na academia sobre as articulações de evangélicos no Congresso Nacional, as duas palavras andam juntas como se fossem sinônimas, mas referem-se a  mobilizações políticas diferentes. Essa confusão conceitual ajuda a explicar por que o perfil da  composição da Frente Parlamentar Evangélica (FPE)  costuma surpreender quem só acompanha o assunto de longe.

A FPE formalizou seu atual registro na Câmara dos deputados, em maio de 2023, a partir de uma base da Bancada Evangélica, estabelecida no Congresso Constituinte de 1986, com 32 deputados federais. A partir dali, em seguidas legislaturas, com altos e baixos na adesão,  a Bancada Evangélica permaneceu articulada. A FPE, nesta 57ª Legislatura, teve alterações na composição ao longo do mandato por conta de licenças, suplências e outras situações. Em agosto de 2026, os registros da FPE contavam com 232 parlamentares, todos deputados federais. Esta FPE já teve três presidentes:  primeiro, com Silas Câmara (REPUBLICANOS – AM), depois com Eli Borges (REPUBLICANOS – TO) e, em 2026, com, Gilberto Nascimento (PODE -SP).  

Boa parte dos parlamentares que assinam a criação de uma frente não pretende necessariamente atuar nela: às vezes assinam apenas porque vão precisar de apoio recíproco quando chegar a vez de lançarem uma frente de seu próprio interesse. Podem também assinar para transmitir ao seu eleitorado algum tipo de alinhamento. 

Este texto cruza dados abertos da Câmara dos Deputados e do Tribunal Superior Eleitoral com o levantamento da identidade religiosa dos deputados federais da 57ª legislatura realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER). A  tentativa é responder a uma pergunta simples: quem, de fato, está na Frente Parlamentar Evangélica hoje, e o que essa composição revela sobre os limites de tratar “evangélico” como um bloco político único.

Uma frente evangélica com vinculação católica

Um dos nomes mais emblemáticos da lista de católicos membros da FPE é Eros Biondini, deputado federal do PL por Minas Gerais. Fundador da Comunidade Mundo Novo e integrante da Renovação Carismática Católica, Biondini criou o “Cristo é o Show”, um dos maiores eventos musicais católicos do país, e apresenta o programa Mais Brasil na TV Canção Nova. Não há zona cinzenta na religião dele, é um católico atuante, com carreira pública construída em torno da fé católica. Ainda assim, Biondini integra plenamente a FPE que, pelo nome, representa outra tradição cristã.

O inverso também acontece, e prova o mesmo ponto por outro ângulo. A Câmara Federal tem uma Frente Parlamentar Católica Apostólica Romana, criada em 2015. Entre os 221 membros dessa frente está Marcelo Crivella, deputado federal pelo Republicanos no Rio de Janeiro e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Se Biondini é exemplo de um dos católicos que assina embaixo da articulação evangélica no Parlamento, Crivella é um dos evangélicos que assina embaixo da mobilização católica. Os dois casos, lado a lado, mostram que a lógica não é exceção isolada, pois é assim que frentes parlamentares com identidade religiosa costumam se formar no Congresso, por adesão política, não por credo.

Quem fica de fora também conta a história

Se a FPE inclui para além de evangélicos, o oposto também é verdade, e talvez seja o dado mais revelador deste levantamento. Dos 135 deputados da 57ª legislatura identificados como evangélicos pelo ISER, 99 integram a FPE, e 36 não aderiram a ela . Esta lista de ausentes tem nomes que, sozinhos, já desmontam a ideia de que ser evangélico implica alinhamento automático com a pauta conservadora que a frente costuma capitanear.

O caso mais nítido é o do Pastor Henrique Vieira, deputado federal pelo PSOL no Rio de Janeiro, liderança emérita da Igreja Batista do Caminho, denominação de linha progressista, conhecida por posições de esquerda em pautas de gênero e direitos humanos. Henrique Vieira sempre deu visibilidade  à  fé evangélica, que é parte pública de sua trajetória política desde os tempos de vereador na cidade fluminense de Niterói, mas não aderiu à  FPE . Não é difícil entender o porquê, em sua atuação pública se posiciona contra a redução da maioridade penal, em defesa do Estado laico, da diversidade religiosa, dos direitos da população LGBTQIA+ dentre diversas outras pautas que se distanciam portanto, da agenda predominante dos parlamentares que integram a Frente.

O outro nome é Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e deputada federal pelo Rede em São Paulo, vinculada à Assembleia de Deus do Novo Dia. Em entrevista durante o período eleitoral, ela resumiu a própria posição numa frase que poderia abrir qualquer debate sobre o tema: “sou cristã e nunca instrumentalizei a fé nem as igrejas”. A frase separa exatamente as duas coisas que por vezes a política brasileira tende a juntar, que são ter uma fé e transformá-la em instrumento de campanha.

Frente e identidade religiosa, portanto, não se sobrepõem em nenhuma direção. Há muitos parlamentares não evangélicos ligados à FPE ao mesmo tempo em que há evangélicos com atuação relevante fora dela. Isto sugere que uma frente religiosa mede, com mais precisão, não a fé de seus integrantes, mas a disposição de cada parlamentar em assinar um documento formal em torno de uma pauta política específica.

A ala à esquerda que a FPE também abriga

Entre os 232 membros da Frente Parlamentar Evangélica, há 15 deputados do Partido dos Trabalhadores, ao lado do o PSB, que tem 3, o que soma dezoito parlamentares de partidos historicamente ligados à esquerda brasileira, quase 8% do total do grupo. O nome mais visível é Benedita da Silva, deputada federal pelo PT no Rio de Janeiro, ligada à Igreja Presbiteriana do Brasil. Sua trajetória pública combina, há décadas, militância evangélica com antirracismo e defesa de mulheres negras. É, um retrato da presença evangélica na política que raramente aparece na cobertura jornalística sobre o tema, quase sempre reduzida à pauta de costumes e ao apoio automático à direita.

Vale a ressalva de que os parlamentares da direita que compõem  a FPE também estão longe de formar um bloco uniforme. O tema do sionismo cristão, por exemplo, não encontra unanimidade no interior da direita religiosa, já que é uma pauta específica, com história própria, que se somou tardiamente ao repertório da direita cristã brasileira, sobretudo depois da aproximação do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL) com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, como descreve Magali Cunha em artigo sobre o tema.

2026: reeleição não é destino único

Dos 232 membros da FPE, 216 continuam candidatos em 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o equivalente a 93% do grupo. Porém,continuar candidato não é sinônimo de buscar o mesmo cargo.

A maioria, 182 parlamentares, disputa a reeleição para deputado federal, defendendo a cadeira que já ocupa. Já 28 sobem de patamar e disputam vaga no Senado, o que significa que mais de um em cada dez membros da FPE tenta uma ascensão institucional, não apenas a manutenção do mandato. Outros dois atuais deputados federais disputam governos estaduais, enquanto quatro recuam, concorrendo a deputados estaduais. Estes dados indicam que este movimento é mais heterogêneo do que a palavra “reeleição” costuma sugerir, com parte de integrantes da FPE alçando cargos no Senado e em governos de estados, parte buscando se manter na Câmara e uma fração pequena recuando na hierarquia de cargos, seja por cálculo eleitoral, por desgaste ou por qualquer outro motivo que este levantamento não permite apontar.

Esses 28 não se distribuem pelo espectro político: 22 deles (79%) estão em PL, Republicanos, PP, Novo e União Brasil, sendo o PL sozinho responsável por 12 — de Bia Kicis (DF) e Gustavo Gayer (GO) a Hélio Bolsonaro (RR), Filipe Barros (PR) e Carol de Toni (SC). Do outro lado, há um único nome à esquerda, Benedita da Silva (PT-RJ). Celso Sabino (PDT-PA), ministro do Turismo, e André Fufuca (PP-MA), ministro do Esporte, são governistas sem identidade de esquerda. Em termos de religião declarada, o grupo dos 28 se divide quase pela metade entre evangélicos (13) e católicos (12) — o que sugere que a tentativa de ampliar a presença no Senado é um projeto da direita cristã, e não de uma denominação específica. Pesquisadoras como Magali Cunha leem esse movimento como parte de um esforço mais amplo de recomposição de forças no Senado, com vistas a pautas como a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e o processo de afastamento de ministros do Supremo Tribunal Federal.

O que a FPE mede e o que não mede

Os dois atalhos mais comuns na cobertura sobre religião e política, tratar “evangélico” como sinônimo de “conservador” e “frente” como sinônimo de “bancada”, falham aqui de formas complementares. A Frente Parlamentar Evangélica é, ao mesmo tempo, maior e menor do que o campo evangélico, porque, respectivamente, abriga católicos como Eros Biondini e porque deixa de fora evangélicos como Henrique Vieira e Marina Silva.

O que os números sugerem, no fim, não é que uns usem a fé e outros não. É que dentro do amplo espectro evangélico brasileiro, aderir a uma frente parlamentar é uma decisão política como qualquer outra, sujeita a cálculo de pauta e de aliança, e não um traço automático de quem professa essa fé. Henrique Vieira e Marina Silva mostram que é possível ser evangélico, atuar no Congresso e decidir que essa vinculação específica não serve aos seus objetivos. Biondini e Crivella mostram o oposto: que a assinatura também não exige a mesma identidade religiosa que o nome da frente sugere e o aliançamento está para muito além de uma afinidade confessional.

Referências

Como citar

PESTANA, Matheus Cavalcanti; OWSIANY, Laryssa. "O que os dados sobre a Frente Parlamentar Evangélica nos ensinam sobre Religião e Política". Religião e Poder, 17 set. 2026. Disponível em: . Acesso em: .

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