A onipresença disputada de Aparecida na política e nas imaginações nacionais
Créditos da Imagem: Fotografia de Adriano Godoy presente no ensaio “Aparecidas no cotidiano” publicado na R@U em 2017.
Por Adriano Godoy
- 05 nov 2026
- 11 min de leitura

Eu costumo dizer que Nossa Senhora Aparecida é onipresente no Brasil. Tão recorrente, ela se dilui na paisagem e muitas vezes nem é percebida. Em grande parte do país, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste, é quase impossível passar um dia sem ver uma reprodução de sua imagem. Ela está em caminhões, lojas, oficinas, bares, prefeituras, assembleias legislativas, grafites, cemitérios, camisetas e em nomes de ruas, cidades e pessoas.
Isso se dá porque, diferentemente de outros projetos políticos e religiosos que fracassaram no Brasil, a consolidação de Aparecida como símbolo nacional foi um grande êxito, fruto de muito empenho numa causa tão espiritual quanto terrena. Prova disso é seu protagonismo a cada eleição, exacerbado em 2026. Quero explorar aqui como essa onipresença foi constituída e é disputada politicamente.
Uma história política resumida
A história oficial, propagada pela Igreja Católica, começa em 1717, quando três pescadores teriam encontrado no rio Paraíba do Sul uma imagem quebrada de Nossa Senhora da Conceição – daí o nome: uma imagem aparecida nas águas. Até o final do século 19, era apenas mais uma devoção regional entre centenas, embora em local privilegiado. A situação muda drasticamente na passagem para o século 20, transição decisiva para entendermos o momento atual.
Em 1904, a pedido dos bispos brasileiros, o papa Pio X concede a Aparecida o título de “Rainha do Brasil”. O motivo era sobretudo político. Na Primeira República, a Igreja buscava reaver o poder perdido com o fim do padroado, e uma de suas frentes, liderada pelo Cardeal Leme, foi transformar a devoção regional em símbolo nacional, lembrando ao Estado laico que a nação seguia católica. A coroação usou a coroa doada pela Princesa Isabel, a princesa destronada, e assim, Aparecida assumiria o reinado perdido.
É também nesse período que a santa, até então retratada com pele branca nos santinhos, passa a ser representada como negra, e que se oficializam milagres envolvendo escravizados. Isto ocorre logo após a abolição assinada pela princesa que ela vinha substituir.
A acomodação entre Igreja e Estado viria com Getúlio Vargas. Em 1931, a imagem original é recebida na capital federal e o presidente participa da proclamação de Aparecida como Padroeira do Brasil, título concedido no ano anterior por Pio XI. O título religioso ganha reconhecimento estatal, e o manto oficial passa a entrelaçar as bandeiras do Vaticano e do Brasil.
Daí em diante, Estado e Igreja cooperam na propagação da santa, sobreposta à bandeira e ao mapa. No Estado Novo, ela passa a compor o mito da democracia racial como “Mãe Negra do Povo Mestiço”. Em 1964, é carregada nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade; em 1967, torna-se Generalíssima do Exército. Em 1980, ganha feriado nacional.
Uma história devocional (ainda mais) resumida
A força de Aparecida não veio só do Estado e da Igreja e está enraizada na esfera doméstica. As romarias estabeleceram um vínculo entre a casa da santa e a casa dos devotos; suas réplicas ocupam altares domésticos e as fotografias votivas povoam álbuns familiares. Não à toa, é chamada de “Cidinha”. É na memória afetiva que família e nação se sobrepõem.
Essa domesticação também foi fruto de esforço institucional. Os Missionários Redentoristas levavam imagens de Aparecida a paróquias de todo o país, com o apoio da Rádio Aparecida e do Jornal Santuário, que faziam a devoção e suas pautas chegarem às casas. Com doações de governos como os de Juscelino Kubitschek, nos anos 1950, e dos generais ditadores Costa e Silva e Médici nos anos 1960 e 70, o santuário tornou-se centro nacional de peregrinações e irradiador de ideias, mídias e objetos que moldaram a identidade do catolicismo brasileiro. Foi então consolidada a cidade que se tornou a capital católica do país.
O declínio do reinado
A primeira grande contestação pública desse reinado se dá em 1995, no episódio conhecido como “chute na santa”, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma imagem de Aparecida em rede nacional de TV, no dia do feriado de 12 de outubro. Na minha avaliação, parte da população que não se via contemplada por Aparecida se sente empoderada para manifestá-lo publicamente, e com violência. Se na virada do século 19 para o 20 Aparecida foi acionada como referência de união nacional, na virada do século 20 para o 21 passa a indicar a erosão dessa conciliação. Em 2001, o bispo da igreja pentecostal Comunidade das Nações J. B. Carvalho questiona o padroado no livro “Bomba”, conteúdo que, em 2007, vira projeto de lei do então deputado do PMDB-MT, pastor Victório Galli, que foi arquivado em 2008. São esses fatos que voltam à tona em 2026.
Viralizações e novas aparições
O boato parece ter começado com a jornalista Maria Cristina Fernandes, na Globo News, ao relatar que fontes da alta hierarquia católica temiam que a eleição de Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, levasse à revogação do título de Padroeira. O vídeo com a análise no programa de TV, recortado, viralizou como certeza. O candidato falou em fake news, e a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) reafirmou ser apartidária. O temor vinha da proximidade de Flávio Bolsonaro com J. B. Carvalho e Victório Galli e da promessa que o candidato havia feito em campanha de que, uma vez eleito, decretaria que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, lida como apito de cachorro para a revogação do padroado.
Quero ressaltar a profusão de imagens de Aparecida que passou a inundar as redes digitais, de fotografias e charges a imagens de inteligência artificial. Ao menos na minha bolha, surgia uma Aparecida empoderada, de esquerda: pisando numa águia estadunidense ou em serpentes com cabeças de políticos da extrema-direita, chutando Bolsonaro, compondo a bandeira do MST, retratada como mãe negra e periférica, abraçando Oxum e outros orixás.
A novidade estava na convergência de duas das faces da santa. O nacionalismo constitui sua trajetória, pois ergue-se contra a Primeira República para depois ser estandarte do Estado Novo e da Ditadura Militar. Desde os anos 1970, a Teologia da Libertação lhe deu formas progressistas, em que sua racialização espelha não a mãe conciliadora da nação, mas a “opção preferencial pelos pobres”. Por décadas opostas, essas faces se conciliaram em 2026 num nacionalismo progressista – antiestadunidense, antibolsonarista, rogando pelas mulheres negras e pelo pluralismo religioso –, com grande efeito entre eleitores de Lula e do Partido dos Trabalhadores, que tem raízes na Teologia da Libertação.
Digo eleitores, e não católicos, por um bom motivo: em mais de uma dezena de influenciadores e instituições católicas, encontrei pouca ou nenhuma reverberação. Ali, cada vertente mantinha sua Aparecida: Rainha e Generalíssima para tradicionalistas e carismáticos; Padroeira para os diocesanos; Mãezinha para os devotos. Seu reinado nunca foi consenso no catolicismo.
Encruzilhadas e apontamentos
A diluição de Aparecida na paisagem resulta de sua culturalização. Ela é, sim, patrimônio cultural brasileiro, mas essa culturalização não foi espontânea: veio também das vontades institucionais. A força política do catolicismo brasileiro está em fundir-se àquilo que se considera cultura e, assim, tornar-se parte intrínseca da brasilidade e cola unificadora da nação. Isto só é eficaz pelo apagamento dos esforços coordenados que a produziram. Aparecida atingiu o ápice desse movimento ao se confundir com o projeto de nação do século 20, do sincretismo e da democracia racial. É esse projeto que está em jogo.
Desde a virada do século 21, o declínio católico vem acompanhado da crise desse projeto, com outras religiões buscando lugar na imaginação nacional, algumas pela força. Quando tentam patrimonializar suas práticas, são acusadas de politizar o religioso, como se o enquadramento estatal entre cultura e religião não fosse, ele mesmo, político. Com o colapso do projeto de nação, seus símbolos entram em disputa.
O que 2026 evidencia é que em um projeto de nação à esquerda há espaço para uma Aparecida repaginada, que atualiza os pactos do século 20 em tons de diversidade étnico-racial e pluralismo religioso. Em um projeto de extrema direita, não há mais espaço para ela.
Diante dessa encruzilhada, para a qual não tenho respostas, destaco três bases da disputa. A primeira é a laicidade e o pluralismo religioso: questionar uma padroeira nacional de uma religião específica é indagar qual modelo de laicidade adotar. O inegável é que a cola nacional de Aparecida perde efeito e ela é cada vez mais vista apenas como referência de uma parte da população.
A segunda base são as regras da disputa. Proliferam casos de intolerância e racismo religioso, potencializados pelos traços racializados e sincréticos associados a Aparecida. Para algumas lideranças, não se trata de pluralizar, mas de garantir a primazia estatal de uma só religião, como sempre ocorreu com o catolicismo. A troca da Padroeira pelo “Senhor Jesus Cristo” indica não a ocupação do vácuo de um Estado laico, mas a substituição do catolicismo pelo cristianismo evangélico na imaginação nacional.
A terceira base é o lugar dos evangélicos no projeto de nação à esquerda. Entre os dois turnos, nas eleições de 2026, muitos eleitores de Lula reafirmaram que Aparecida unifica a nação e que questionar seu padroado seria intolerância. Ignoraram que, para um número expressivo de evangélicos, sua imagem não une, e sim separa. Ao atrelar seu projeto a uma imagem tão católica, a esquerda provocará inevitavelmente afastamentos entre aqueles que não se identificam com Aparecida.
Aparecida segue onipresente, mas está cada vez menos invisível, sintoma de que deixa de ser cultura nacional para se restringir a um segmento religioso. O canhão de luz algorítmico apontado sobre ela em 2026 indica que veremos até que ponto o Estado terá interesse e a Igreja Católica terá forças para torná-la invisível novamente. A campanha “Ateus por Nossa Senhora Aparecida” sugere que poderão emergir aliados improváveis e conjunturais, a depender de qual Aparecida queiram visibilizar.
Referências:
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Como citar
GODOY, Adriano. "A onipresença disputada de Aparecida na política e nas imaginações nacionais". Religião e Poder, 05 nov. 2026. Disponível em: . Acesso em: .
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