Bibliografia básica – Religião, gênero e sexualidade no Brasil
Conteúdo produzido em parceria ISER / NEXO JORNAL. Uma versão deste texto foi originalmente publicada no Nexo Políticas Públicas, em 03 mar 2026.
Por Raphael Bispo
- 30 abr 2026
- 6 min de leitura

Nas últimas décadas, sociólogos(as) e antropólogos(as) têm se dedicado a compreender as interseções entre religião, gênero e sexualidade no Brasil. Esse interesse ganhou força recentemente diante do avanço pentecostal, da ressignificação da hegemonia católica, das perseguições às religiões afro-brasileiras e da ascensão de uma “onda conservadora” na esfera pública, ligada a atores religiosos.
A bibliografia aqui sugerida busca oferecer um panorama das principais questões que estruturam esse campo, articulando obras clássicas e produções contemporâneas para iluminar a complexidade da realidade social brasileira.
Em colaboração com Edilson Pereira, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ampliamos essa reflexão na introdução do volume 45, n. 2, da revista Religião & Sociedade, intitulada Entre deuses, desejos e dissidências: um mapa dos estudos sobre religião, gênero e sexualidade no Brasil.
Fazendo estilo, criando gêneros: possessão e diferenças de gênero em terreiros de umbanda e candomblé no Rio de Janeiro
Patrícia Birman (Edições UERJ/Relume Dumará, 1995)
Os cultos afro-brasileiros impulsionaram as primeiras pesquisas socioantropológicas sobre religião, gênero e sexualidade no país. Suas estruturas e cosmologias abriram espaço para maior acolhimento das dissidências, destacando o prestígio das feminilidades — tema central em obras como A cidade das mulheres, de Ruth Landes (1947), e em artigos de Peter Fry dos anos 1970, como Mediunidade e Sexualidade, publicado no primeiro volume da revista Religião e Sociedade.
Patrícia Birman renovou esse debate ao deslocar o foco da questão da tolerância para a forma como a possessão promove um desacoplamento entre corpos, papéis de gênero e desejos, mediado pela relação entre humanos e entidades espirituais. Sua atenção às noções de pessoa e corporalidade tornou seu trabalho pioneiro. Birman evidencia como as performances de gênero nos terreiros — os modos de agir, vestir, dançar e falar durante a possessão — criam e legitimam posições sociais, de modo que categorias como macho e fêmea, homens e mulheres, “bichas” e “fanchas” são continuamente produzidas e transformadas.
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Pentecostalismo e a redefinição do feminino
Maria das Dores Campos Machado e Cecília Loreto Mariz (Religião & Sociedade, vol. 1/2, no 17: 140-159, 1996)
Em 1991, o Censo revelou que quase 10% dos brasileiros se declaravam evangélicos, despertando intenso interesse acadêmico pelo fenômeno. Os números cresceriam ainda mais nas décadas seguintes. Pesquisadoras, apoiadas nos novos referenciais dos estudos de gênero, buscaram compreender a “onda evangélica”, com atenção especial ao impacto do pentecostalismo na vida das mulheres.
Maria das Dores Campos Machado e Cecília Loreto Mariz, sociólogas que dedicaram parte significativa de suas carreiras ao tema, assinam um dos primeiros trabalhos sobre o assunto em parceria, presente também em Mulheres e práticas religiosas: um estudo comparativo das CEBs, Comunidades Carismáticas e Pentecostais.
Apesar das persistentes estruturas patriarcais nas novas formas de religiosidade evangélica, as autoras ressaltam que a filiação religiosa proporcionava às mulheres maior protagonismo na reorganização de suas famílias e na vida religiosa brasileira. Embora não advogassem pela igualdade de gênero, o engajamento evangélico conferia às mulheres certa autonomia, autoestima e participação na esfera pública, atenuando as obrigações tradicionais.
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Família e Religião
Luiz Fernando Dias Duarte, Maria Luiza Heilborn, Myriam Lins de Barros e Clarice Peixoto (Contracapa, 2006)
O refrão de uma canção da Campanha da Fraternidade de 1994, promovida pela Igreja Católica — “A família, como vai? Meu irmão, venha e responda! Quem pergunta, é o Pai, a verdade não esconda!” — convida à reflexão sobre a situação religiosa das famílias. Esse questionamento também atraiu sociólogos(as) e antropólogos(as) a partir dos anos 2000, interessados na recorrente associação entre fenômeno religioso e dinâmicas do parentesco no Brasil.
A coletânea Família e Religião (2006) reúne pesquisadores(as) que compartilham uma mesma preocupação: tanto a família quanto a religião constituem esferas “tradicionais” da vida, mas entram em tensão com a valorização moderna do indivíduo independente. Surge, então, a pergunta: como o pertencimento religioso e familiar se articula a dimensões íntimas, como sexualidade, reprodução, casamento, corpo e afetividade? Desdobramentos dessa reflexão aparecem em obras como Sexualidade, família e ethos religioso e As novas guerras sexuais, de Marcelo Natividade e Leandro de Oliveira, que dialogam diretamente com os temas centrais de família e religião formulados no contexto dessa cena de estudos.
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Gênero, feminismo e religião: sobre um campo em constituição
Maria José Rosado (Garamond, 2015)
Na contemporaneidade, a intensificação das disputas sobre gênero e sexualidade na esfera pública, especialmente frente ao avanço dos (neo)conservadorismos religiosos, gerou uma crescente bibliografia socioantropológica sobre conflitos entre ações coletivas em defesa dos direitos sexuais, reprodutivos e LGBTQIA+, e a influência da (extrema) direita no Brasil. Entre os temas mais debatidos nesse campo, a descriminalização do aborto se destaca.
A obra organizada pela socióloga Maria José Rosado, conhecida por sua atuação no movimento Católicas pelo Direito de Decidir e por ampla trajetória nos estudos de gênero e religião, reúne colaboradoras e colaboradores que reconhecem a complexidade das religiosidades, marcadas por contradições e disputas, o que pode dificultar, mas nunca limitar, o importante diálogo entre estudos de religião e de gênero/feminismo. A coletânea enfatiza as tensões entre moralidades religiosas e direitos sexuais e reprodutivos, além de examinar como instituições religiosas respondem ou resistem às demandas feministas.
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Ministérios no whatsApp: gênero, sensorialidades e transformações ético-políticas no cotidiano de mulheres evangélicas
Lorena Mochel (Sexualidad, Salud y Sociedad, v.39, p. 1-24, 2023)
Pesquisas contemporâneas destacam os processos de produção de corporalidades religiosas, nos quais performatividades de gênero se manifestam na estilização repetida do corpo. Agendas interseccionais também reivindicam maior atenção a questões raciais, de classe, territoriais, étnicas, nacionais e etárias nos estudos de religião.
O trabalho de Lorena Mochel ilustra bem esses debates. Inicialmente centrada em evangélicas consumidoras de produtos eróticos, a autora ampliou sua análise ao observar a formação de um ministério pentecostal feminino sem vínculos institucionais fixos, mediado pelas mídias digitais, no qual as mulheres negociavam cotidianamente a coexistência de suas identidades femininas e evangélicas.
O foco recai também sobre a diversidade de formas de incorporar normas e experimentar agência entre mulheres religiosas, indo além das leituras “liberatórias” ou “seculares” típicas da modernidade ocidental.
Na atualidade, pesquisadoras como Jacqueline Moraes Teixeira e Nina Rosas seguem caminhos semelhantes, desenvolvendo novas abordagens analíticas que muito têm estimulado esse campo de estudos.
Como citar
BISPO, Raphael. "Bibliografia básica – Religião, gênero e sexualidade no Brasil". Religião e Poder, 30 abr. 2026. Disponível em: . Acesso em: .
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