Além do boi e da Bíblia: como o agrocristianismo ajuda a pensar o Brasil
Conteúdo produzido em parceria ISER / NEXO JORNAL. Publicado originalmente no Nexo Políticas Públicas em 06 Fev 2026.
Foto: Reprodução Youtube – Frei Gilson
Por Renata Nagamine
- 19 mar 2026
- 7 min de leitura

Quando Marília Mendonça morreu, louvores apareciam ao lado de ícones e símbolos católicos no luto público que reuniu artistas e usuários de mídias sociais. Curiosa, não conseguia identificar a filiação religiosa de muitos.
A aparição do evangelista Deive Leonardo e do sacerdote Frei Gilson nas últimas edições da festa do peão de Barretos, ou “Barretão”, reforçaram minha impressão de uma mudança em curso. Essa mudança é bifronte: afeta a produção do cristianismo e do chamado “agro”.
Cada um com cerca de 10 milhões de seguidores apenas no Instagram, Deive Leonardo e Frei Gilson são figuras midiáticas, que arrastam uma multidão aos seus shows em todo o Brasil. Qual o sentido de eles se apresentarem em um palco sertanejo tão prestigioso quanto o Barretão?
Falar em “Bancada do Boi e da Bíblia” me parece insuficiente para iluminar o fenômeno, por não apontar para o que se produz em nome do agronegócio e do cristianismo fora do Legislativo. Também não indica nem se, nem como agro e religião se constituem simultaneamente. Para compreender a mudança na produção do cristianismo no Brasil, já identificada pela literatura acadêmica, e sua relação com o agro, usei o termo “agrocristianismo”.
O primeiro aspecto a esclarecer a respeito é que “agrocristianismo” não é uma categoria que os agentes usem para falar do mundo ou para se definir. Ninguém se apresenta como “agrocristão”. O termo “agrocristianismo” funciona como uma fotografia: faz ver uma relação, não uma substância ou uma coisa. É o que a literatura acadêmica chama de ícone de um diagrama.
Um ícone é um tipo de forma – como um retrato, uma estátua, um mapa – que representa algo para alguém em determinado contexto. Uma característica do ícone é que a forma expressiva compartilha da mesma qualidade significativa do seu objeto.
No caso do “agrocristianismo”, digo que se trata de um ícone porque a forma da palavra repete a operação que nomeia. Ela nomeia uma articulação entre agro e religião, ao mesmo tempo que reproduz, em sua forma lexical, a fusão semiótica emoldurada.
Como ícone de um diagrama, “agrocristianismo” também adquire significado por apontar para um espaço físico e social particular, reconhecível no Brasil como distinto de outros. É um ícone que, ao mesmo tempo, aponta para um objeto e, ao fazê-lo, torna-o presente por associação.
Mais concretamente, pensemos como o termo “agro” remete a uma constelação de cidades brasileiras que situamos no interior de São Paulo e em estados do Centro-Oeste. Para quem acompanha o debate público de perto, remete ao que Matias de Alencastro chamou de Mega Centro-Oeste: vai do oeste do Rio Grande do Sul e norte do Paraná, com cidades como Londrina, ao oeste da Bahia e sul do Pará, passando pelo interior de São Paulo, o Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Mato Grosso.
O termo “agro” é associado, além disso, a um espaço social que imaginamos a partir da representação de variações linguísticas, da vestimenta, da música, da sociabilidade e da vida familiar, de discursos sobre riqueza, meio ambiente, entre outras coisas. Para ilustrar, consideremos o chamado sotaque caipira, que “carrega” na pronúncia do “r”, ou o uso do chapéu e da fivela, marcas da roupa do peão, ou ainda uma série de discursos em defesa do direito irrestrito à propriedade, a transformação dos Estados Unidos em ícone do direito ao porte de armas como meio de defesa e da liberdade de expressão.
Nem todas as pessoas no espaço físico com a proeminência do agronegócio ou associadas ao agro falam do mesmo modo, têm o mesmo gosto musical, dão a mesma importância à família ou têm a mesma opinião sobre economia, política e outros assuntos. Também não é o caso de supor que essas práticas só sejam observadas nos espaços socialmente associados ao agro. Mas a associação entre espaço, práticas e tipos sociais funciona no Brasil.
Perceber, assim, as representações suscitadas pela escuta ou leitura do termo “agro” convida à análise da produção de certos tipos sociais e sua associação com determinados atributos e posições. Também convida à análise da produção de todo um regime de valor a partir das práticas de agentes que se associam ao agro e da representação social dessas práticas.
Entendido como repertório expressivo, afetivo e público no Brasil, o cristianismo participa da representação do espaço do agro. Ele contribui para associá-lo à nação e à ordem, ou: à imagem de uma nação ordenada.
Ao associar os termos “agro” e “cristianismo”, aponto para um conjunto de mudanças relacionadas com a produção da modernidade brasileira, com o modo como ela é pensada e com o lugar da religião no processo. Essa construção das mudanças tensiona o modo como a teoria social pensa a relação entre campo e religião, ambos tomados por clássicos do chamado pensamento social brasileiro como instâncias do local, da tradição, do atraso e mesmo do subdesenvolvimento brasileiro.
No que se refere à religião, temos, numa dimensão, a produção de marcas da pluralidade religiosa em espaços tipicamente católicos, como o campo e o interior do país. Pesquisas do Observatório da Religião e Interseccionalidades com dados da Receita Federal (CNPJ) e do Censo 2022 indicam a presença importante de organizações, associações e sujeitos evangélicos na região Centro-Oeste proporcionalmente à população.
Noutra dimensão, temos a produção de um cristianismo sem marcas denominacionais ou com marcas atenuadas. Neste caso, interessam em particular duas operações que observamos nas práticas dos agentes. A primeira é a condição a cada dia mais borrada do catolicismo como “o original” da religião, uma espécie de matriz em relação com a qual o religioso historicamente se fez no Brasil. Paradoxalmente, essa sua condição tem por causa a pluralidade religiosa que observamos no Brasil como efeito do funcionamento da doutrina jurídica e política do pluralismo.
A segunda operação de interesse é o apagamento de marcas que possibilitem identificar os agentes e suas práticas com denominações ou vertentes religiosas. Na festa do peão de Barretos 2024, Deive Leonardo moldou seu cristianismo a uma audiência que ele mesmo imaginou plural do ponto de vista da religião. Em resposta à sua ministração, evangélicos erguiam os braços e católicos tornavam a palma da mão para cima. Na mesma arena, já em 2025, Frei Gilson emendou um “louvor” no outro, falando em família e inferno. Gradualmente, os agentes parecem forjar uma espécie de “cristianismo genérico”, uma cópia sem original, tomando emprestado a fórmula de Scott MachLochlainn.
Trabalho com a hipótese de que, a agentes religiosos midiáticos, como Deive Leonardo e Frei Gilson, as marcas denominacionais podem comprometer sua capacidade de agregar público. Esta percepção aponta, a seu turno, para o modo como eles percebem o próprio contexto em que atuam: um contexto que eles reconhecem como sendo de pluralidade religiosa em que – eles imaginam – a indeterminação é uma condição de circulação.
O termo “agrocristianismo” consiste em uma tentativa de dar forma verbal e visual a um processo em curso. Ao nomeá-lo, a palavra condensa a fusão entre um campo econômico, uma linguagem religiosa e um regime moral, tornando essa fusão visível como imagem. Facilita reconhecer que, entre rodeios, louvores e discursos sobre ordem, está se formando um modo de imaginar e falar que disputa a ideia de Brasil.
Como citar
NAGAMINE, Renata. "Além do boi e da Bíblia: como o agrocristianismo ajuda a pensar o Brasil ". Religião e Poder, 19 mar. 2026. Disponível em: . Acesso em: .
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