Atualizado em: 24/12/2022 às 15h28

Um primeiro retrato da relação entre religião e voto nas eleições de 2022 foi produzido por pesquisadores e pesquisadoras do Instituto de Estudos da Religião (ISER). Trata-se de um levantamento da identidade religiosa confessional dos deputados e deputadas federais eleitos, que recebem diplomação na cerimônia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 12 de dezembro de 2022.

Este primeiro retrato usa como ponto de partida uma pesquisa detalhada, que tem por alvo as candidaturas federais e estaduais de oito estados (Bahia, Goiás, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo). São entes da federação que têm grandes colégios eleitorais e destacam a importância da religiosidade em seus aspectos culturais. 

A pesquisa segue a mesma metodologia construída para a identificação das candidaturas com identidade religiosa nas eleições municipais de 2020, cujas capitais dos Estados agora pesquisados foram o foco. Na mesma linha, dados quantitativos e qualitativos foram levantados para permitir uma análise das diversas formas pelas quais candidatos mobilizaram sua identidade religiosa nas campanhas para as eleições nacionais. 

A noção da “identidade religiosa” construída pelo ISER é crucial para o desenvolvimento da pesquisa. Mais do que identificar uma vinculação religiosa, os pesquisadores buscam compreender os elementos como raça, gênero, ideologia e disputas discursivas em campanha que atravessam a relação entre religião e política, para além do pertencimento a um segmento religioso. Isto significa verificar “candidaturas com identidade religiosa” nas suas mais diferentes nuances nas eleições 2022.

Esta investigação detalhada das candidaturas nesses oito estados priorizados ainda está em curso, porém, a partir dela, o ISER oferece ao público uma análise ampliada: uma primeira contribuição: o levantamento da confissão religiosa dos deputados e deputadas federais eleitos para a 57ª Legislatura (2023-2026). 

A liberação destes dados pelo ISER ocorre no contexto da cerimônia de diplomação dos vencedores do processo eleitoral de outubro passado, conduzida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 12 de dezembro. De acordo com o TSE, com a diplomação, “os eleitos se habilitam a exercer o mandato que postularam, mesmo que haja recurso pendente de julgamento, pelo qual se impugna exatamente a diplomação”.

Cristãos e evangélicos: perfis que chamam a atenção

Para traçar o perfil da confessionalidade religiosa dos candidatos à Câmara Federal, a pesquisa do ISER se baseou em apontamentos prévios (documentos, pesquisas, conhecimento notório) sobre candidatos que tentaram a reeleição ou a eleição para cargos em outros níveis, bem como na exposição pública em campanha eleitoral (todo tipo de material de divulgação impresso, em áudio e vídeo e em perfis de mídias sociais, com suas marcas discursivas). 

Com estas bases, a equipe privilegiou no registro dos dados a autoidentificação. Quando não havia esta declaração da parte dos candidatos, a conclusão sobre identidade confessional era baseada na percepção social – a identificação a partir da exposição pública (heteroidentificação).  A equipe da pesquisa também esteve atenta ao fenômeno do trânsito religioso pelo qual podem passar políticos com identidade religiosa já registrada em materiais anteriores.

De acordo com o levantamento, dos 513 deputados eleitos que comporão a Câmara Federal a partir de 2023, 401 tiveram sua confissão religiosa identificada (78,16%), como mostra o gráfico: 

O maior número de deputados federais eleitos tem identidade católica (233 – 45,4% dos que comporão a Câmara), o que acompanha a tendência dos registros de religião da população, de maioria católica. Em segundo lugar estão os futuros parlamentares identificados com a categoria genérica “cristã” (83 – 16,2%), seguidos daqueles cuja confessionalidade é evangélica (76 – 14,8%). Outras confissões religiosas têm uma presença bem menor, com a manutenção da hegemonia cristã entre os deputados federais: são três afrorreligiosos (0,6%), três espíritas (0,6%) e uma parlamentar de espiritualidade indígena (0,2%). 

Estes números chamam a atenção dos pesquisadores do ISER em dois pontos, sendo o primeiro, em relação aos parlamentares identificados como cristãos. Esta é uma categoria genérica que foi verificada na pesquisa sobre as eleições municipais 2020, avaliada como uma estratégia de campanha de mobilização religiosa mais direta. Com ela, o discurso alcança católicos, evangélicos e aqueles sem religião definida, mas que de alguma forma se identificam com as moralidades e valores cristãos. 

A noção de estratégia é instigada pelos números, quando se verifica que, dos 46 cristãos que se autoidentificam como tal, quase a metade (22) é vinculada a uma igreja (sete à Católica e 15 a evangélicas, entre cinco batistas, seis pentecostais e quatro não identificadas). 

O outro ponto que chama a atenção no levantamento é a não ampliação do número de deputados evangélicos na Câmara, como projetou a liderança da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) para estas eleições. 

O presidente da FPE, em 2022, deputado pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), declarou à Folha de S. Paulo, em entrevista, em fevereiro passado: “A principal dedicação [da FPE] neste ano será traçar uma estratégia com os colegas para finalmente chegar ao tamanho que temos no país, 30%. Ainda nos falta fidelizar mais votos do segmento”. 

A pesquisa do ISER mostra que evangélicos são 14,8% dos eleitos (76 deputados). Quando adicionados os que se declaram cristãos e vinculados a uma igreja evangélica, o total do que comumente a cobertura política chamaria de “evangélicos”  chega a 99 parlamentares, 19,29% da Câmara Federal, número distante da meta de 30% estabelecida pela FPE para o pleito. Neste grupo, 58,58% foram reeleitos, entre eles Sóstenes Cavalcante e outros da liderança da FPE. Veja aqui a lista dos parlamentares com vinculação a uma igreja evangélica eleitos, com seus perfis levantados na pesquisa do ISER.

Gênero e raça: categorias relevantes

Como indicado na roda de conversa Religião e Eleições, promovida pelo ISER em 28 de novembro passado, há um lugar imprescindível das categorias gênero e raça nos estudos em religião e política, com destaque para mulheres evangélicas e expressões de matriz africana.

O levantamento do ISER sobre a confessionalidade dos eleitos para a Câmara Federal aponta que a desigualdade de gênero e raça segue como um destaque negativo neste perfil, como indicam os números expostos nos gráficos a seguir:

Entre parlamentares eleitos com confissões agrupadas no Cristianismo, dominam os homens (média de 83%) e os brancos (média de 67,3%). As mulheres só conseguem dividir de forma mais equânime as cadeiras da Câmara Federal com homens, ou mesmo alcançar maioria, entre afrorreligiosos e os sem-religião. Nos demais grupos religiosos, há apenas três espíritas (dois homens e uma mulher), e uma única confissão de espiritualidades indígenas, de uma mulher. Já parlamentares negros aparecem de forma expressiva apenas no grupo de confissão afrorreligiosa, mas estes são apenas três eleitos. 

Este retrato de gênero e raça entre parlamentares com identidade religiosa confessional, marcado pela desigualdade, reflete a estrutura patriarcal e racista presente na sociedade brasileira. Porém, chama a atenção que ele não corresponda ao perfil do cotidiano, das relações e das dinâmicas que envolvem, em especial, os grupos religiosos cristãos e afrorreligiosos, marcadamente compostos, na maioria, por mulheres negras. 

Uma Câmara de Deputados que segue conservadora

Se a legislatura que se encerra foi reconhecida como fortemente conservadora no tocante à composição da Câmara Federal, o quadro entre os deputados eleitos com identidade religiosa confessional não revela mudança. Predomina neste grupo de tendência política de direita, o bloco de confissão cristã que é maioria. A esquerda é maioria no grupo com mais baixo número de parlamentares – os sem religião (11), os afrorreligiosos (03) e a deputada de espiritualidade indígena.

No tocante à vinculação partidária, são três os partidos que se destacam por terem mais deputados federais com identidade religiosa confessional. O Partido Liberal (PL), de direita, ao qual está filiado o presidente não reeleito Jair Bolsonaro, é o que tem o maior número, 85, composto pela maioria de 34 católicos, além de 27 cristãos (sendo oito de igrejas evangélicas e dois da católica), 22 evangélicos, dois espíritas.

A segunda agremiação com o maior número de eleitos para a Câmara Federal com identidade religiosa confessional é o Partido dos Trabalhadores (PT), com 49 deputados federais. A grande maioria no PT é de católicos, com 36, sendo os outros seis cristãos de vinculação não identificada, dois evangélicos e  cinco sem religião.

O terceiro partido em número de parlamentares com identidade religiosa confessional é o União, com um total de 49: maioria de católicos, com 26, 13 cristãos (sendo quatro de igrejas evangélicas não identificadas e um da católica) e dez evangélicos.

O partido onde os classificados como evangélicos estão mais concentrados é o PL (24), seguido do Republicanos (18) e do União e do PT (cada um com 10). Os católicos, estão mais concentrados no PT (36), no PL (34), no PSD (28), no União e no PP (cada um com 26), e no MDB (24). Os relacionados à categoria genérica “cristãos” se concentram no PL (27), no União (13) e no Republicanos (oito). 

Os parlamentares que não têm identidade cristã e se vinculam a outras religiões são apenas sete e estão no PT (dois afrorreligiosos e uma espírita), no PSOL (espiritualidade indígena), no PC do B (afrorreligiosa) e no PL (espíritas). Já os oito que se declaram sem religião estão distribuídos entre PT (três), PSOL (três), PCdoB (uma) e Republicanos (um).

Há livre acesso aos dados levantados pelo ISER. Basta clicar aqui.

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado