Protestantes: de Lutero à Calvino

A história do monge agostiniano que enfrentou a Igreja no século 16 é conhecida por todos. Martinho Lutero, iniciou um movimento que tinha como principal objetivo reformar a Igreja de Roma. A disputa de Lutero com Roma foi até as últimas consequências porque este contou com o apoio dos Príncipes que deram ao então monge condições políticas para enfrentar a poderosa Igreja romana. Em 1517, Lutero dá sinais claros de que o rompimento com a Igreja romana estava com seus dias contados quando questiona a infalibilidade do Papa e promove a conhecida 95 teses. Dar-se início o que conhecemos hoje como Protestantismo. Essa palavra, no seu sentido negativo, foi dada para aqueles que protestavam contra a chamada “corrupção” que Roma promoveu com o Evangelho. É a partir daí que o termo protestante ganhou um sentido polemista, mas também uma referência ao ato de resistir diante do status quo estabelecido. 

Ainda que a Reforma conhecida como “luterana” seja a mais evidente, é bom frisar que antes de Lutero já havia outros “protestantismos”, ou seja, movimentos fora da Alemanha que reivindicavam pautas parecidas com as de Lutero, com algumas diferenças pontuais. É o caso de Ulrico Zwínglio e João Calvino na Suíça. Ambos, em diferentes momentos, reivindicaram a centralidade das Escrituras e condenaram o que chamaram de “erros” da Igreja romana. Ainda que Lutero tenha tido a sua parcela significativa para o desenvolvimento do protestantismo, foi com Calvino que esse segmento do Cristianismo ganhou proporções mundiais a partir da sua interpretação doutrinária.

A teologia de Calvino ajudou a difundir a Reforma Protestante para o outro lado do continente, o que conhecemos hoje como Reino Unido. Na Escócia, os presbiterianos surgiram com força; na Holanda, os calvinistas também se fizeram presentes através da Igreja Reformada Holandesa; na Inglaterra a teologia dos “puritanos” foi predominante, surgindo daí os “separatistas” e depois um grupo resistente dentro da Igreja estatal migrando para o que é hoje os Estados Unidos.

Até esse momento, os personagens que deram impulso para a Reforma protestante se concentraram em aspectos teológicos e políticos. A radicalização do discurso da Reforma veio com os chamados radicais. 

Protestantes radicais: de Müntzer aos ingleses 

Dentre os radicais, o destaque é para Thomas Müntzer. Este travou conflitos acentuados com Lutero por conta da questão dos camponeses. Divergiu, resistiu e lutou quando sentiu empaticamente as condições dos camponeses, explorados pelos senhores de terra, e confrontou essa realidade com a sua teologia e a leitura da Bíblia. A equação dessas duas questões resultou em um rompimento com Lutero e uma tomada de decisão ao lado dos camponeses, tendo como consequência a violência como último recurso para ver acabar a opressão e o descaso contra os camponeses por parte dos Príncipes. O movimento foi dizimado.

Um outro ponto da história dos “radicais”, está na Inglaterra dos anglicanos. Esse outro ramo da Reforma Protestante se deu com o rei Henrique VIII que rompeu com a Igreja de Roma quando decidiu pelo divórcio com Catarina de Aragão. Ainda que este seja um dos principais motivos para o rompimento com a Igreja romana, já estava em ebulição a contribuição teológica de John Wycliffe. O rompimento com Roma se concretizou em 1534, tornando a Igreja da Inglaterra independente definitivamente. 

É a partir desse contexto do protestantismo inglês que surgiram os radicais, quando estes tiveram acesso à Bíblia na língua vernácula. Christopher Hill fornece um primoroso trabalho de pesquisa, demonstrando como a Bíblia na Inglaterra favoreceu a consciência das ideias políticas, as reivindicações por equidade e a derrubada do poder absolutista. A Bíblia exerceu um papel fundamental na Inglaterra depois do rompimento de Henrique VIII com a Igreja de Roma, quando os radicais passaram a usá-la como instrumento político. 

Na Inglaterra dos séculos 16 e 17, a Bíblia se tornou o meio para que a comunicação fosse possível, assim como um instrumento indispensável na condução política do País. Tomadas pela leitura libertária da Bíblia, pessoas passaram a enxergar os desmandos do rei e a vida precária das comunidades como pecado. A desigualdade que enxergaram na Inglaterra dos anos 1640, foi possível a partir da Bíblia. Assim, passaram a questionar a relação entre senhores e escravos porque não encontraram na Bíblia nenhum fundamento que desse esse “direito” aos senhores. O ministro anglicano John Wesley foi alguém que resistiu a escravidão a partir desse contexto e o seu movimento deu origem ao Metodismo. Os radicais usaram o texto bíblico para reivindicar acesso aos bens e à terra, como também questionar a concentração de riqueza e o poder nas mãos da nobreza. Foram, de fato, protestantes.

Protestantes, de uma maneira geral, foram identificados por suas questões de ordem teológica, política e social. Ainda que a ambiguidade seja o termo mais adequado para designar esse grupo heterogêneo, a marca indelével foi a resistência ao status quo: num primeiro momento contra os desmandos da Igreja de Roma (Lutero); contra a opressão dos Príncipes (Müntzer); contra o sistema absolutista do rei (radicais na Inglaterra). 

De protestantes para evangélicos

Agora, quando focamos nos termos protestante e evangélico, percebemos a polissemia dos conceitos no contexto mundial. O termo protestante, está ligado historicamente à Dieta de Espira (1529), quando um grupo protestou contra as medidas do rei Carlos V. Foi um protesto a partir da consciência. Assim, católicos e protestantes estavam, juridicamente, separados. 

Já o termo evangélico tem duas maneiras de ter sua origem verificada. Num primeiro momento aparece na Alemanha como um termo positivo, ou seja, no sentido teológico de adequação da doutrina com o Evangelho. É por essa razão que os luteranos no Brasil, por exemplo, se identificam como Igreja Evangélica Luterana do Brasil e Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. A ideia de colocar a doutrina em acordo com o Evangelho está na origem do termo usado por Lutero. Os evangélicos, portanto, são aqueles que procuram seguir o Evangelho de Jesus Cristo tornando a doutrina mais próxima dessa perspectiva. Por essa razão, cristão e evangélico tornaram-se termos intercambiáveis. 

O segundo momento para entender o termo evangélico está na Inglaterra. Se com Lutero o termo ganhou uma conotação bíblico-teológica, com os chamados dissidentes ingleses, o termo passou a ter um sentido político no século 17. “Evangélico” surge no contexto inglês como uma forma de tomar distância da Igreja da Inglaterra. Assim, evangélicos eram todos aqueles que não concordavam com a Igreja estatal e, para se diferenciarem, passaram a se intitular “evangélicos”.

Mais à frente, quando na Paz de Westfália (1648) se reconheceu os calvinistas e luteranos como aparentados de alguma maneira, passou-se a utilizar o termo “evangélico” como uma forma de designar um grupo na sua coletividade dentro da Europa. Dessa forma, ambos passaram a serem aceitos dentro do Sacro Império Romano Germânico como religião lícita por terem um Corpus Evangelicorum. Em sequência (1817) foi criada a União Prussiana das igrejas reformadas e luteranas, unindo-as com o nome “Igreja Cristã Evangélica”. Todas as comunidades de fé que eram agregadas a essas igrejas, passaram a ser designadas como “evangélicas”.

Desse modo, percebemos que o termo protestante foi uma designação para fora do grupo dissidente da Igreja Católica Romana, ou seja, um termo para marcar posição diante das questões que envolviam as controvérsias com Roma. No contexto mundial, o termo protestante está relacionado com a questão polêmica e a tomada de posição teológica. Já o termo evangélico tem uma função agregadora (para dentro do grupo) no sentido de favorecer uma certa unidade entre as denominações, preservando as diferenças de cada uma, mas também unindo em aspectos comuns. 

Protestantes e evangélicos no Brasil

Quando procuramos identificar o grupo, ou grupos, de cristãos que não são católicos no Brasil, a partir dos termos protestante e/ou evangélico, temos algumas dificuldades quanto à localização desses termos em seus devidos contextos denominacionais. Um exemplo pode ser dado facilmente. As Igrejas Luteranas, como já citamos, se identificam como Igreja Evangélica no nome. O mesmo pode ser visto na identificação de uma das maiores igrejas pentecostais no Brasil, que traz em seus templos “Igreja Evangélica Assembleia de Deus”. 

Isso demonstra que, mesmo havendo diferenças significativas entre as denominações, há uma espécie de modus operandi entre as igrejas evangélicas em termos de conteúdo teológico, importado dos Estados Unidos, para a grande maioria das igrejas fruto de missão estadunidense, e uma certa “coerência” litúrgica em termos do uso da Bíblia e dos cânticos que são comuns entre as denominações. 

Ainda assim, não é possível afirmar que todos os cristãos não católicos sejam evangélicos. Isso porque algumas igrejas e não poucos pastores, depois de recorrentes fatos envolvendo os evangélicos no Brasil, principalmente a partir de ações e falas de pastores e líderes midiáticos dessas igrejas, evitam o termo evangélico a fim de marcar posição contrária àquilo que os evangélicos na sua maioria defendem. 

Como vimos, o termo usado no início da Reforma para os diversos grupos polemistas foi protestante(s). No caso do Brasil, esse termo não foi um consenso no seu sentido de grupo, isso porque o termo protestante foi visto no seu aspecto individual, ou seja, um certo indivíduo que professa a sua fé a partir de uma interpretação direta e pessoal da Bíblia, sendo, desse modo, identificado como protestante quem era contrário aos ensinamentos da Igreja Católica, principalmente os missionários que viam para o país fazer missões. 

O termo protestante não “pegou” entre as igrejas no Brasil. As igrejas que comumente chamamos de históricas não utilizaram esse termo para se identificarem. Um exemplo é quando surge a Confederação Evangélica Brasileira (1954), uma entidade formada por diferentes igrejas que não usou o termo protestante (já procurando uma aproximação com os católicos por meio do movimento ecumênico), mas sim evangélicos. Talvez seja por esse fato que o termo evangélico tenha sido usado para abranger um grupo maior de cristãos, ou crentes, como também já foram conhecidos, que não faziam parte da Igreja Católica. 

Assim, o termo evangélico, num primeiro momento, teve uma função muito parecida com o uso no contexto europeu: um termo que serviu para incorporar, para dar uma certa autonomia e identidade a um grupo não católico. Ainda assim, não é usual que  igrejas conhecidas como neopentecostais ou pós-pentecostais sejam identificadas como evangélicas. E nem mesmo essas igrejas fazem questão de se identificarem como integrantes da camada dos “evangélicos” (embora a grande mídia as veja pertencentes ao mesmo grupo). Ao que parece não fazem questão de usarem o termo evangélico para se diferenciarem dentro do grande guarda-chuva da chamada “Igreja Evangélica Brasileira”. 

Alonso Gonçalves é doutor em Ciências da Religião, professor na Faculdade de Teologia Sul Americana.

Referências 

DREHER, Martin N. “Protestantes-evangélicos: buscando entender”. In: DIAS, Zwínglio M.; RODRIGUES, Elisa; PORTELLA, Rodrigo (Orgs.). Protestantes, evangélicos e (neo)pentecostais: história, teologias, igrejas e perspectivas. São Paulo: Fonte Editorial, 2013, p. 25-71. 

HILL, Christopher. A Bíblia inglesa e as revoluções do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. “O protestantismo no Brasil e suas encruzilhadas”. Revista USP, n. 67, p. 48-67, 2005. 

OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. “Protestantismo”. In: BORTOLLETO, Fernando (Org.). Dicionário brasileiro de teologia. São Paulo: ASTE, 2008, p. 817-822.