Religião Messiânica

Foto: Solo Sagrado de Guarapiranga / Reprodução: messianica.org.br

Andrea Tomita

Por Andrea Tomita

  • 02 abr 2025
  • 7 min de leitura
Religião Messiânica
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A religião messiânica não é cristã, embora seja comumente confundida com alguma igreja evangélica. É uma nova religião japonesa (NRJ), presente no Brasil desde 1955. Hoje, no Japão, é denominada Sekai Kyusei Kyo (SKK). Neste verbete, é observado o processo de institucionalização, além da sua mutante e complexa configuração identitária.

Na atualidade, entusiastas da proposta do fundador Mokichi Okada (1882-1955) transmitem sua mensagem de diferentes formas: a) igrejas com foco na prática do johrei; b) institutos e livres iniciativas que associam johrei terapêutico e Medicina Integrativa; c) empresas e centros de pesquisa de agricultura/alimentação natural; d) museus e fundações para socialização da arte; e) escolas de ikebana; f) solos sagrados; f) comunidades digitais de estudos messiânicos etc.

A Messiânica e a ligação com Kannon

Instituída em 1 de janeiro de 1935, seu primeiro nome foi Dai Nipon Kannon Kai (DNKK) que significa “Associação Kannon do Grande Japão”. 

Kannon (ou Kuan Yin) representa a compaixão de todos os budas e aparece no budismo Mahayana como encarnação da salvação do mundo.  No entanto, Okada compreendia Kannon como um “ente absoluto, fonte de todas as divindades”.   

Como uma NRJ que contém paradigmas pré-modernos e modernos oriundos de distintos saberes, uma das características da complexidade da Messiânica é a conjugação de elementos tidos como contraditórios. 

Por exemplo, o estatuto da DNKK mescla termos tanto de caráter associativo (presidente, mensalidade) quanto religioso (imagem de Kannon, culto, fiéis). Contudo, inexistem termos como “igreja” ou “instituição religiosa” nos ideogramas em japonês (大日本観音会). 

De terapia à religião 

Nos anos de 1930, o Japão vivia o acirramento da política nacionalista, e um dos pilares era o Xintoísmo de Estado. Portanto, as NRJ sofriam grande pressão e restrições na liberdade de culto. 

Em maio de 1934, Okada abriu a Casa Ojin-do, onde aplicava o “tratamento espiritual de shiatsu estilo Okada” que deu origem ao johrei (prática messiânica cujo significado é “purificação do espírito”). 

Em 1936, no entanto, em meio a forte coerção sobre as NRJ, Okada dissolveu a DNKK e criou a Associação Japonesa de Saúde, apresentando os princípios de uma medicina espiritual revelada por Deus. Seus textos de divulgação vieram a constituir os Ensinamentos de Meishu-Sama (nome religioso de Okada que significa “senhor da luz”). 

Compreender o espaço que a saúde humana ocupa na religião messiânica é fundamental para a visão de que a religião é apenas uma parte da salvação. No texto “Nascimento do novo mundo” de 1952, Okada diz que a Messiânica poderia ser chamada de “Empresa Construtora do Novo Mundo”. 

Perseguições e transformações institucionais 

Assim como outras NRJ, durante a ocidentalização e militarização no Japão, a Messiânica foi alvo de intensa perseguição religiosa. Em seus 90 anos de existência, passou por várias transformações institucionais. 

Em 1947, foi fundada a Igreja Kannon do Japão e, em 1948, a Igreja Miroku do Japão. Em 1950, ambas foram dissolvidas e reunidas, por certo período, sob o nome de Sekai Meshiya Kyo (Igreja Messias Mundial), com a convicção de que o fundador era o Messias.

É fato que o processo de institucionalização da Messiânica produziu impactos múltiplos: desde o processo de cisões decorrentes da morte de Mokichi Okada, passando por múltiplas divergências internas e a recente interrupção na sucessão hereditária da liderança espiritual da SKK, a partir de 2018.

A ligação com Messias e a salvação do mundo 

Observe-se que a nomenclatura DNKK apresentava um viés nacionalista, além do forte apelo simbólico e devocional em torno de Kannon, especialmente, na religiosidade popular do início do século XX.

Por outro lado, no Japão do pós-guerra, quando Okada já desenvolvia a expansão da religião em paralelo à construção dos Solos Sagrados, o nome adotado foi “Igreja Messias Mundial”, embora se saiba que o termo Messias não tem a mesma carga simbólica vista no Ocidente.

A este respeito, Okada escreveu: “O nome ‘Kyusei’ é o mais apropriado, mas, por ser uma denominação japonesa, é muito oriental; logo, não faz sentido. Por isso, escolhi a expressão ‘Messias’. Assim, juntando-se o Oriente e o Ocidente, [a nossa Igreja] torna-se mundial. A palavra Messias relaciona-se especialmente a Cristo, portanto, é uma ótima denominação, por ser do apreço dos povos civilizados”. (TOMITA, 2014, p. 39) 

Atualmente, no Japão, a Igreja Messiânica corresponde a Sekai Kyusei Kyo (世界救世教) cuja tradução é “Igreja da Salvação do Mundo”. 

A  saída da Messiânica do Japão ocorreu em 1953, por meio das mãos de uma missionária: a reverenda Kiyoko Higuchi que desembarcou no Havaí em 1953 e, depois, se transferiu para Los Angeles. 

A Messiânica no Brasil: interação e ressignificações 

Como uma NRJ, a Messiânica se constituiu no Brasil, em 1955, pela interação de tendências diversas: autóctones, xamânicas, crenças populares, xintoístas, confucionistas e hindu-budistas, além de conceitos messiânicos.

Ao longo dos 70 anos de contato com a religiosidade brasileira, tem experimentado ressignificações diversas. Porém, afinal, como ressignificar aspectos tão distintos como Kannon, Messias, saúde e milagres para fins de salvação do mundo? 

Desafios e riscos 

Uma vez que a expansão da Messiânica ocorre em tempos de globalização, um dos grandes desafios é a questão identitária. Como manter a unidade, se a SKK possui nomes e recortes doutrinários distintos conforme a necessidade de adaptação à legislação e ao contexto religioso de cada país? “Church of World Messianity” foi a nomenclatura da SKK nos EUA até a década de 1990, alterada posteriormente para Johrei Fellowship, Miroku Association, entre outras.  

No Brasil, de forma isolada, chegou a ser chamada de Igreja Messianita, até seu registro oficial como “Igreja Messiânica” em 1964. Em um país tido como cristão, a escolha e manutenção do termo “igreja” foi conveniente por vários motivos. No entanto, como visto, a Messiânica é multifacetada. Assim sendo, em que medida a face “igreja” não inibe os demais aspectos da fé messiânica? Ou até suscita riscos como a distorção de pontos cruciais da mensagem original do fundador? 

A partir da tendência budista da Messiânica, tem-se a noção de “graças recebidas nesta vida” (gento riyaku). Em termos messiânicos, em lugar da resignação ao sofrimento, seria a busca por transformação e consequentes milagres que consistem na força motriz da construção de um novo mundo.

Contudo, em meio à atual mercantilização e coisificação da religião, é possível que gento riyaku seja ressignificado de forma rasa ou equivocada. Aquilo que conhecemos por “comprar gato por lebre”. 

Se a Messiânica não é evangélica é preciso atenção para que sua teologia não seja identificada com certos aspectos da teologia da prosperidade, em que imperem aproximações apressadas, irrefletidas ou descontextualizadas. Afinal, seu foco é a salvação do mundo; não do mercado.

Referências:

FUNDAÇÃO MOKITI OKADA (org.). Luz do Oriente. V. 1. 5ª ed. São Paulo: Fundação Mokiti Okada, 2024.

_______. Ensinamentos de Meishu-Sama: Alicerce do Paraíso, v.1 a 6; 7. ed. São Paulo: Fundação Mokiti Okada, 2024.

MOA International do Brasil. Trabalhando para criação de uma sociedade feliz. Disponível em: https://moa.org.br/ Acesso em 09 mar. 2025.

TOMITA, A. Religiões japonesas e a Igreja Messiânica no Brasil: integração religiosa e cultural. 2ª. ed. São Paulo: Fundação Mokiti Okada, 2016. TOMITA, A. & MAGALHÃES, B.C. Caminhando com Meishu-Sama: conversas sobre fé e cotidiano. São Paulo: Pluralidades: 2020.

Como citar

TOMITA, Andrea. "Religião Messiânica". Disponível em: . Acesso em: .

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