As religiões no Brasil: entre o Censo (IBGE, 2022) e a pesquisa Religião e Vida Pública (ISER, 2026)
Por Matheus Cavalcanti Pestana e Maria Carolina Barreto
- 06 nov 2026
- 14 min de leitura

Um retrato comparado do Censo 2022 e da pesquisa ISER/Quaest 2026, por território e perfil social.
Qual é o lugar das religiões no Brasil de hoje? A pergunta atravessa a vida cotidiana, a identidade das famílias e a presença pública das igrejas, templos e terreiros. Ela também depende da forma como é feita. O Censo Demográfico 2022 e a pesquisa Religião e Vida Pública, de 2026, realizada pelo ISER em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria para execução de campo, de 2026, oferecem dois retratos próximos no tempo, mas construídos com instrumentos, universos e classificações diferentes. Lidos em conjunto, esses levantamentos ajudam a localizar continuidades e contrastes no pertencimento religioso brasileiro.
O ponto de partida deste artigo é semelhante ao do trabalho publicado pela plataforma Religião e Poder, “As Religiões no Brasil”, de 2021, que aproximou os dados do Censo 2010 de uma pesquisa do Instituto Datafolha, de 2019, recurso muito utilizado à época. Agora a comparação usa os microdados de 2022 do Censo e os de 2026 do ISER. A partir disso, todos os percentuais foram recalculados para pessoas com 16 anos ou mais e receberam os pesos próprios de cada levantamento. Assim, os números abaixo respondem a uma pergunta comum: como se distribuem as religiões entre brasileiros adolescentes a partir dos 16 anos e adultos?
No Censo, a pergunta sobre religião não foi aplicada a todos os recenseados. Ela fez parte do questionário da amostra, respondido por pessoas com 10 anos ou mais. Nesta análise, utilizamos a versão de acesso controlado dos microdados, ponderada pelo peso de pessoa, e restringimos o universo à população com 16 anos ou mais, de modo a torná-lo comparável ao da pesquisa do ISER. Esta, por sua vez, entrevistou presencialmente 15 mil pessoas dessa faixa etária entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026, a partir de uma amostra nacional por conglomerados, na qual a população é dividida em grupos por unidades geográficas. Assim, os resultados de ambos os estudos devem ser lidos como estimativas ponderadas, e não como contagens simples de respostas .
Um país ainda majoritariamente católico, porém mais plural
No recorte comum, 57,4% se declaravam católicos no Censo 2022, enquanto na pesquisa ISER 2026, eram 50,0%. Os evangélicos passaram de 26,4% a 28,8% nas duas fontes, enquanto a parcela sem religião foi de 9,2% a 14,0%. A diferença mais ampla entre os dois retratos está na presença católica e no crescimento relativo da categoria sem religião. Não se trata de uma medição direta de conversões: cada fonte observa pessoas diferentes, com métodos de coleta e classificação próprios.

Figura 1 — Participação dos principais grupos religiosos na população de 16 anos ou mais.
No Censo, as religiões afro-brasileiras somam 1,1% da população, enquanto na pesquisa ISER chegam a 2,8%. Já os espíritas aparecem com 1,9% e 2,0%, respectivamente. É importante destacar que percentuais pequenos não significam pouca importância social ou cultural. Ainda assim, é preciso cuidado na leitura dos dados desses segmentos, uma vez que, em grupos menores, uma variação modesta no número de entrevistas pode alterar bastante a estimativa. Além disso, a divulgação preliminar do IBGE, frequentemente citada pela imprensa, considera pessoas com 10 anos ou mais e utiliza pesos de uma etapa anterior. Nesse sentido, os percentuais do Censo não devem ser confundidos com os valores aqui apresentados, que se referem à população com 16 anos ou mais (IBGE, 2025; 2026).
Idade: o contraste é mais forte entre os jovens
Em 2022, os católicos eram 51,8% dos brasileiros de 16 a 24 anos; em 2026, 37,0%. Entre pessoas de 60 anos ou mais, a comparação é de 67,3% e 64,8%. A distância entre os levantamentos é, portanto, bem maior na juventude. A categoria sem religião também ganha destaque nessa faixa com 13,6% no Censo e 21,8% na pesquisa ISER. Já entre 25 e 34 anos, a proporção de evangélicos vai de 28,0% a 33,5%.

Figura 2 — Participação religiosa dentro de cada faixa etária.
Ao inverter o recorte e observar a distribuição etária em cada religião, é possível compreender melhor a composição desses grupos. Na pesquisa ISER, 30,2% dos católicos tinham 60 anos ou mais, enquanto entre os evangélicos esse percentual era de 17,9% e, entre as pessoas sem religião, de 12,8%. No Censo 2022, a participação dos mais velhos entre os católicos era de 23,6% e esse perfil sugere um catolicismo relativamente mais envelhecido. No entanto, o intervalo de quatro anos entre as pesquisas e as diferenças de amostragem impedem que toda a variação seja atribuída a uma única causa.

Figura 3 — Distribuição de idade dentro dos três maiores grupos religiosos.
Uma fotografia de faixas etárias também não distingue, sozinha, o efeito de geração do de ciclo de vida. Parte da diferença pode refletir trajetórias de uma geração; parte pode vir de mudanças no pertencimento religioso ao longo da vida. Para separar esses processos seriam necessárias outras séries ou o acompanhamento das mesmas pessoas.
Regiões e estados: uma mudança desigual
A geografia religiosa brasileira segue marcada por diferenças históricas. No Censo do IBGE, o Nordeste e o Sul tinham as maiores parcelas católicas entre as grandes regiões: 64,5% e 63,1%. Na pesquisa ISER, elas aparecem em 56,4% e 53,9%. O Norte conserva a maior presença evangélica nos dois retratos, de 36,1% e 39,4%. O Sudeste reúne a maior proporção de pessoas sem religião, com 10,4% em 2022 e 16,4% em 2026.

Figura 4 — Participação religiosa por grande região.
Na escala estadual, aparecem contrastes adicionais, embora as bases da pesquisa sejam menores do que as do Censo em cada Unidade da Federação (UF). Entre os estados com base suficiente para destaque no gráfico, a parcela católica no Rio Grande do Sul passa de 61,4% no Censo para 48,7% na pesquisa ISER. No Rio de Janeiro, essa parcela vai de 39,7% para 28,6%, enquanto a categoria sem religião sobe de 16,6% para 26,2%. Vale ressaltar, porém, que esses números são estimativas estaduais e não comprovam uma trajetória para cada UF. Por esse motivo, o gráfico não apresenta os recortes com base insuficiente na pesquisa ISER.
Já no Nordeste combina uma parcela católica acima da média nacional com a menor participação evangélica entre as regiões: 22,2% no Censo e 25,3% na pesquisa ISER. No Sul, a parcela evangélica passa de 23,3% a 27,5%. A direção dessas diferenças não elimina a diversidade interna de cada região, uma vez que os estados, e ainda mais seus municípios, podem ter perfis muito diferentes.

Figura 5 — Diferença em pontos percentuais por UF nos três maiores grupos; apenas UFs com base suficiente na Quaest/ISER.
Sexo e cor ou raça: perfis que não se reduzem a uma média nacional
A participação religiosa muda entre homens e mulheres. No Censo, 58,5% dos homens e 56,4% das mulheres eram católicos, enquanto na pesquisa ISER, ambos os grupos ficam em torno de 50%. A parcela sem religião é maior entre os homens nas duas bases, com 10,8% e 16,6%, contra 7,6% e 11,6% entre as mulheres. Entre elas, as religiões afro-brasileiras aparecem com 1,2% no Censo e 3,3% na pesquisa ISER.

Figura 6 — Participação religiosa entre homens e mulheres.
A diferença entre homens e mulheres persiste mesmo quando a composição católica das duas pesquisas converge em 2026. Isso mostra por que uma análise restrita à religião majoritária é insuficiente, já que as pessoas sem religião e os grupos de menor tamanho têm perfis próprios. Cabe destacar, no entanto, que esses percentuais não indicam maior ou menor prática religiosa, uma vez que os dois instrumentos aqui comparados perguntam apenas sobre pertencimento.
O recorte por cor ou raça, por sua vez, evita que a média nacional esconda perfis distintos. Entre as pessoas brancas, a parcela católica é de 60,8% no Censo e de 50,9% na pesquisa ISER. Entre as pessoas pretas, esses valores são de 49,7% e 43,5% e, entre as pardas, de 56,3% e 50,9%. Já a categoria sem religião reúne 8,3% das pessoas brancas no Censo e 14,9% na pesquisa ISER, enquanto entre as pessoas pretas esses percentuais são de 12,0% e 16,4%. Vale lembrar que esses percentuais têm como denominador o total de pessoas de cada categoria racial, e não apenas os integrantes de determinada religião.

Figura 7 — Participação religiosa dentro das categorias de cor ou raça com base suficiente.
A retração católica entre levantamentos aparece nas três categorias raciais com maior base, mas não com a mesma magnitude. Entre pessoas brancas, a diferença é de 9,9 pontos percentuais; entre pretas, 6,2; entre pardas, 5,4. A leitura exige manter em vista a distribuição racial da população e o fato de que as classificações são autodeclaradas em pesquisas de natureza distinta.
Escolaridade e renda: duas aproximações com cuidados diferentes
Para escolaridade, a comparação foi restrita a pessoas com 25 anos ou mais, idade em que a conclusão das etapas de ensino pode ser observada com mais estabilidade. Entre pessoas com superior completo, 58,5% eram católicas no Censo e 47,5% na pesquisa ISER; a parcela sem religião aparece em 9,2% e 17,1%. Evangélicos, nesse mesmo recorte, aparecem em 20,4% e 24,5%. As quatro faixas usadas aqui agrupam respostas que originalmente têm detalhamento diferente nos dois questionários.

Figura 8 — Participação religiosa por escolaridade, entre pessoas de 25 anos ou mais.
Na faixa de médio completo ou superior incompleto, a parcela católica vai de 54,6% a 47,2%, enquanto a de pessoas sem religião vai de 8,9% a 14,6%. A comparação sugere que a diferença entre os dois retratos atravessa os níveis de ensino, mas não permite dizer que escolaridade cause mudança de religião. Idade, região e renda também variam entre esses grupos.
No caso da renda, o cuidado precisa ser ainda maior. O Censo informa a renda total do domicílio, enquanto a pesquisa ISER perguntou sobre a renda familiar total. Ambas foram reclassificadas em faixas de salário mínimo, tomando como referência o valor adotado em cada instrumento. No Censo 2022, esse valor é de R$ 1.212, e na pesquisa ISER, aplicada em 2026, é de R$ 1.518, conforme impresso no questionário.
Acima de dez salários mínimos, a parcela católica é de 61,3% no Censo e de 39,3% na pesquisa ISER, ao passo que a parcela sem religião passa de 9,7% para 23,5%. Ainda assim, a amplitude dessas diferenças não deve ser lida como variação no poder aquisitivo ou na renda de um mesmo grupo. Afinal, entre as duas pesquisas mudam a unidade de medida, a referência monetária e a composição das pessoas em cada faixa.

Figura 9 — Participação religiosa por faixa de renda em salários mínimos; conceitos de domicílio e família diferem.
Na faixa de até dois salários mínimos, as diferenças são menores: católicos aparecem com 57,4% e 53,5%; evangélicos, com 27,3% e 29,9%; pessoas sem religião, com 9,9% e 11,3%. Essa gradação sugere que o contraste de renda não é uniforme, ainda que a equivalência seja somente aproximada e não autorizada ordenar as religiões por condição econômica sem examinar a renda em cada grupo e o tamanho das famílias.
Subgrupos: onde a comparação alcança e onde termina
Os grandes grupos religiosos abrigam experiências bastante diversas. Nas categorias que apresentam correspondência suficientemente clara entre as duas pesquisas, a Umbanda reúne 0,8% da população no Censo e 1,9% na pesquisa ISER. O Candomblé, por sua vez, passa de 0,3% para 0,8%, e os agnósticos, de 0,5% para 1,4%. Já o espiritismo se mantém próximo de 2,0% nas duas bases. Entre as pessoas que se declaram apenas sem religião, sem especificar ateísmo ou agnosticismo, os percentuais são de 7,6% e 11,2%. Vale ressaltar, contudo, que a sondagem feita na pesquisa ISER após a resposta espontânea pode influenciar a distribuição nessas categorias mais específicas.

Figura 10 — Subgrupos com correspondência direta e base suficiente para destaque gráfico.
Para outras subdivisões, optou-se por não calcular diferenças numéricas. A categoria “protestantes”, na classificação da pesquisa ISER, não equivale automaticamente às evangélicas de missão do Censo, assim como “evangélicos sem igreja” não corresponde necessariamente à categoria evangélica não determinada. Além disso, as denominações evangélicas individuais registradas pelo ISER não encontram correspondência no arquivo censitário aqui utilizado. Há ainda uma divergência marcante na categoria derivada “Católico Apostólico Brasileiro”, nomes que coincidem nas duas bases, mas cujos resultados indicam codificações distintas. Nesses casos, apresentar uma diferença aparentemente precisa seria mais enganoso do que explicitar os limites da comparação.
O que os dois retratos permitem concluir
De modo geral, a comparação aponta para um catolicismo ainda numeroso e mais presente entre as pessoas idosas, ao lado de uma presença evangélica expressiva e de uma parcela sem religião maior na pesquisa ISER. A distribuição desses grupos, no entanto, varia conforme a idade, a região, a cor ou raça, a escolaridade e a renda. É justamente nessa combinação que reside o interesse sociológico dos dados. Ou seja, o Brasil religioso não muda de maneira uniforme e não pode ser descrito por uma única tendência nacional.
Ao mesmo tempo, é preciso considerar que os quatro anos de distância entre os dois levantamentos não constituem uma série histórica contínua. Nesse sentido, diferenças no formato das entrevistas, na resposta espontânea, na classificação, na cobertura e na ponderação podem contribuir para os contrastes observados.
Além disso, as estimativas apresentadas neste artigo são descritivas, uma vez que não foi realizado um teste conjunto de significância que incorporasse os desenhos amostrais das duas fontes. Por fim, os cruzamentos completos e os critérios de supressão estão disponíveis, de modo a permitir que cada leitura seja refeita e examinada.
Notas metodológicas e fontes
Censo Demográfico 2022: microdados da amostra em versão de acesso controlado, arquivo de pessoas, variável de religião P0411 e peso P0111. A pergunta original contempla pessoas de 10 anos ou mais; neste artigo, o filtro é 16 anos ou mais. A análise escolar restringe-se a 25 anos ou mais. Os microdados usados não são idênticos às tabulações preliminares divulgadas em 2025.
Percentuais arredondados a uma casa decimal. Células pequenas foram suprimidas; figuras e narrativa priorizam bases mais amplas. Renda em salários mínimos é uma aproximação entre renda domiciliar total (Censo) e renda familiar total (ISER). Nenhum registro individual é reproduzido neste documento.
Referências:
Religião e Poder — As religiões no Brasil (2021) [Referência de organização temática] https://religiaoepoder.org.br/artigo/a-influencia-das-religioes-no-brasil
IBGE — Censo Demográfico 2022: Religiões, resultados da amostra — https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html?edicao=43582&t=resultados
IBGE — SIDRA: religião no Censo 2022 — https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/censo-demografico/demografico-2022/amostra-religioes
IBGE — Censo 2022 e notas metodológicas dos microdados (2026) — https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html?edicao=44940&t=sobre
Pesquisa do ISER traça novo retrato da religião e de sua relação com a vida pública no Brasil (2026) https://religiaoepoder.org.br/artigo/religiao-e-vida-publica-no-brasil
Pesquisa “Religião e Vida Pública”, ISER, 2026 – Relatório técnico e microdados da pesquisa (fonte interna, acesso restrito, 17/07/2026). . : 15.000 entrevistas presenciais de 14/01 a 10/02/2026, público de 16 anos ou mais, amostragem em três estágios e peso amostral próprio.
Como citar
PESTANA, Matheus Cavalcanti; BARRETO, Maria Carolina. "As religiões no Brasil: entre o Censo (IBGE, 2022) e a pesquisa Religião e Vida Pública (ISER, 2026)". Religião e Poder, 06 nov. 2026. Disponível em: . Acesso em: .
Conteúdos relacionados

Religião e Vida Pública no Brasil

Pautas em disputa na Câmara dos Deputados (2023-2025)

Mulheres evangélicas, política e cotidiano: os principais achados de quatro anos de pesquisa

Feminicídio e misoginia ganham destaque em projetos de lei sobre violência contra a mulher
Conteúdos relacionados

Religião e Vida Pública no Brasil

Pautas em disputa na Câmara dos Deputados (2023-2025)

Mulheres evangélicas, política e cotidiano: os principais achados de quatro anos de pesquisa
