A ESCOLA PÚBLICA COMO INIMIGA DO “POVO DE DEUS”?

Foto: Lançamento da Frente Parlamentar em Defesa da Educação sem Doutrinação Ideológica.
Reprodução: Youtube / TV Câmara

Silas Veloso

Por Silas Veloso

  • 19 ago 2026
  • 8 min de leitura
A ESCOLA PÚBLICA COMO INIMIGA DO “POVO DE DEUS”?
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Sobre a Frente Parlamentar em Defesa da Educação sem Doutrinação Ideológica 

A Frente Parlamentar em Defesa da Educação sem Doutrinação Ideológica (FPDEDI) consolidou-se no Legislativo brasileiro como o principal dispositivo de articulação entre religião, política e educação. Inserida no contexto do ultraconservadorismo, marcado pela aliança entre ideários neoliberais e neoconservadores cristãos, a FPDEDI traduz essa ofensiva moral em política pública de vigilância curricular e controle da escola.

Uma análise do Requerimento 2196/2023, pelo registro da Frente, do estatuto dela e do levantamento “A batalha pela Educação”, da Democracy Reporting International/FGV, demonstra que a FPDEDI mobiliza o discurso da “doutrinação ideológica” como mecanismo de pânico moral. O objetivo é centralizar a autoridade pedagógica na família e contestar o pluralismo escolar em debates cruciais como gênero, sexualidade, raça e direitos humanos. Essa estratégia é formalizada no estatuto, que reivindica o combate à “doutrinação político-ideológica” e a ampliação da autoridade parental sobre o ensino. Tais diretrizes deslocam a autoridade educacional para um regime de supervisão moral, transformando professores em potenciais doutrinadores e representando a escola pública como um espaço de risco à formação humana.

A denúncia de “doutrinação” atua como um pânico moral que busca a hegemonia religiosa, alinhando-se a vertentes como as teologias do domínio e da batalha espiritual. Nesse cenário, o termo “ideologia de gênero” funciona como uma interdição discursiva para classificar debates progressistas como doutrinários, enquanto naturaliza visões conservadoras. Assim, a defesa de uma escola “sem ideologia” revela-se uma própria operação ideológica ao impor concepções específicas de família e nação, como desenvolvido na Dissertação de Mestrado do autor deste artigo [Ensino de sociologia em tempos de guerra à “ideologia de gênero” (ou da ideologia de “guerra ao gênero”): caminhos possíveis em meio aos novos campos minados na educação].

É importante enfatizar que a FPDEDI opera uma evolução tática em relação ao movimento Escola Sem Partido,babandonando a ofensiva jurídica por uma estratégia de vigilância digital descentralizada. Segundo o levantamento da Democracy Reporting International/FGV, essa tática se centraliza na denúncia de uma suposta “doutrinação de esquerda” e no combate à “ideologia de gênero”. O relatório revela a demografia dessa “polícia ideológica” parlamentar: o movimento é impulsionado por um corpo legislativo majoritariamente masculino (155 homens contra 28 mulheres) e com uma identidade confessional profunda, contando com 87% dos signatários vinculados às frentes parlamentares Evangélica ou Católica. Esse perfil impede uma leitura estritamente pedagógica da Frente, indicando que a pauta escolar atua como uma “zona de tradução” onde o cristianismo é mobilizado como critério de ordenamento público.

A categoria familia docens (família que ensina) (Scotta e Silva, 2024) é interessante para compreender a atuação da FPDEDI, pois descreve uma transformação nas relações entre família e escola: a família é elevada à condição de autoridade pedagógica superior, capaz de validar ou vetar conteúdos, tornando-se instância legítima de definição curricular e regulação moral. Essa noção evidencia como a Frente mobiliza a defesa da família para deslocar a autoridade educacional da esfera pública para convicções privadas, frequentemente orientadas por referências religiosas cristãs com perspectivas conservadoras. 

Nesse contexto, o questionamento da incidência de pressupostos religiosos e morais na educação torna-se crucial, visto que eles tensionam os princípios democráticos da Constituição de 1988, que estabelecem a liberdade de aprender e ensinar, o pluralismo de ideias e a gestão democrática do ensino público. Ao mesmo tempo que invoca a família e a liberdade, a FPDEDI produz mecanismos de vigilância sobre docentes, restringe o pluralismo pedagógico e busca legitimar referências morais e religiosas específicas como se fossem neutras ou universais. 

O Supremo Tribunal Federal (STF) impôs um limite claro à agenda conservadora ao declarar inconstitucional, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 457, uma lei municipal que proibia materiais sobre “ideologia de gênero”. O Tribunal estabeleceu que essas iniciativas violam a liberdade de ensinar e aprender, o pluralismo educacional e o dever estatal de promover a inclusão. Contudo, esse bloqueio jurídico não encerrou a disputa, mas forçou a Frente Parlamentar em Defesa da Educação sem Doutrinação Ideológica (FPDEDI) a migrar sua estratégia: sua atuação se deslocou do plano legislativo formal para um modelo de pressão contínua via audiências públicas, campanhas morais, notas de repúdio e intensa mobilização digital. 

A atuação da FPDEDI revela um dispositivo contemporâneo que articula religião, moralidade familiar e ação legislativa na disputa pelos sentidos da escola pública. Sua força reside na capacidade de “parlamentarizar” a chamada guerra cultural/religiosa, contra a autoridade curricular e “familiarizar” a governança educacional, convertendo debates pedagógicos em disputas morais permanentes. Nesse processo, a suposta neutralidade é mobilizada como estratégia para naturalizar valores conservadores e produzir uma escola tratada como território de vigilância e contenção da diferença, em vez de espaço democrático de formação. 

Essa ofensiva é tecnológica e capilarizada, combinando projetos de lei, audiências públicas e redes digitais de denúncia. Parlamentares como Gustavo Gayer e Nikolas Ferreira, por exemplo, orientam famílias em seminários religiosos sobre como identificar a “doutrinação ideológica” e a “ideologia de gênero”, transformando comunidades de fé em espaços de recrutamento político e moral que incentivam fiéis a serem os “olhos e ouvidos” da Frente nas escolas. 

Esse arranjo consolida uma autonomia familiar que, na prática, legitima saberes e práticas pedagógicas orientadas por moralidades conservadoras, conforme defendido por Cris Serra, em Tese de Doutorado [“Para que tenhamos vida”: saberes e fazeres de coletivos cristãos de feministas e de dissidentes de gênero e sexualidade no Brasil contemporâneo]. A Frente também incide em debates sobre raça e desigualdade, criticando currículos antirracistas como formas de imposição ideológica. 

Diante disso, o questionamento da incidência de pressupostos religiosos e morais na educação é fundamental: não para negar a participação das famílias, mas para neutralizar os efeitos da vigilância moral que substitui o debate pedagógico e trata o pluralismo como ameaça. A disputa em torno da FPDEDI demonstra que a democracia escolar exige a preservação da escola pública como espaço de convivência com a diferença e de negociação pública dos conflitos sociais, contestando as fronteiras de legitimidade impostas pela Frente a corpos, identidades e saberes no espaço escolar. 

Referências

BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no ocidente. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2019.

DEMOCRACY REPORTING INTERNATIONAL; FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. A batalha pela educação: uma análise do termo ‘doutrinação’ na nova Frente Parlamentar da Câmara. [S. l.]: DRI/FGV ECMI, out. 2023. Disponível em: fgv.br. Acesso em: 6 mai. 2024.

REIS, Lívia; CUNHA, Magali; OWSIANY, Laryssa; PESTANA, Matheus (org.). Religião e política: um olhar a partir das pesquisas do ISER (2022-2023). Rio de Janeiro: ISER, 2023.

OLIVEIRA, Gustavo Gilson Sousa de; OLIVEIRA, Anna Luiza. Malditos os que têm Fome e Sede de Justiça: discursos cristãos neoconservadores e lógicas neoliberais na educação brasileira. Currículo sem Fronteiras, [s. l.], v. 22, e1155, p. 1-24, 2022. Disponível em: http://www.curriculosemfronteiras.org/vol22articles/5oliveira-oliveira.pdf. Acesso em: 6 maio 2026.

SCOTTA, L.; SILVA, M. L. da. Família docendis: educação e ethos neoliberal na contemporaneidade. Retratos da Escola, [S. l.], v. 18, n. 42, 2024. DOI: 10.22420/rde.v18i42.2197. Disponível em: https://retratosdaescola.emnuvens.com.br/rde/article/view/2197. Acesso em: 18 ago. 2026.

SILVA, Silas Veloso de Paula. Ensino de sociologia em tempos de guerra à “ideologia de gênero” (ou da ideologia de “guerra ao gênero”): caminhos possíveis em meio aos novos campos minados na educação. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2022. 

SPW. 2021. Ofensivas antigênero no Brasil: políticas de estado, legislação, mobilização social Disponível em: https://www.conectas.org/wp-content/uploads/2021/10/E-book-SOGI21102021.pdf. Acesso em: 26.11.2021. 

SERRA, Cris. “Para que tenhamos vida”: saberes e fazeres de coletivos cristãos de feministas e de dissidentes de gênero e sexualidade no Brasil contemporâneo. 2023. 321 f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023.

SEXUALITY POLICY WATCH (SPW). Sexual politics in the global disorder of 2025. Rio de Janeiro: ABIA, 2025.

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