Para além de uma estratégia eleitoral: as fake news na pauta dos poderes da República

Parte 1: O fenômeno da desinformação – uma introdução

Quem frequenta os espaços midiáticos digitais certamente já se deparou com as expressões “fake news” e “pós-verdade”, fenômenos que permeiam hoje, especialmente, as tão populares mídias sociais e atinge o jornalismo. Estas expressões são, na verdade, termos sofisticados para dizer de uma prática muito própria do ser humano: mentir. Neste caso, mentir para interferir em temas de interesse público.

Casos como a votação do Brexit, em 2016, seguido do processo eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos, no mesmo ano, e as eleições no Brasil, em 2018, são paradigmáticos no reconhecimento de como conteúdos enganosos que interferiram em decisões cruciais de interesse público. A Oxford University Press – Oxford Dictionaries definiu que a palavra post-truth, “pós-verdade”, era “a” palavra internacional daquele 2016, “uma das palavras que definem nosso tempo”, por conta dos 12 meses “politicamente altamente inflamados“. O dicionário define “pós-verdade” como um adjetivo “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal” (tradução nossa). 

Nos estudos em comunicação social, em ciência da informação e em antropologia das mídias, tem-se buscado ampliar o escopo de compreensão e tratar este tema relacionado com o fenômeno da desinformação. Estudos promovidos pela Comissão Europeia, a partir dos episódios do Brexit, levaram à criação, em 2018, de um “Plano de Ação contra Desinformação” da instituição. O documento define o fenômeno como: “Informação comprovadamente falsa ou enganadora que é criada, apresentada e divulgada para obter vantagens econômicas ou para enganar deliberadamente, podendo prejudicar o interesse público”. Destaca-se aí o reconhecimento de uma prática intencional, deliberada, com vistas à obtenção de vantagens econômicas ou à interferência em temas de interesse público. 

Popularmente, convencionou-se denominar “fake news” as notícias que circulam pelas mídias digitais. No entanto, além do material falso e enganoso, há outros elementos que são mais do que notícias e formam o que Claire Wardle denomina, “um inteiro ecossistema de informação”. Para Wardle, a desinformação em circulação, que também envolve o que é impreciso e o que é inconclusivo, pode ser fruto de um jornalismo ruim, pode ser usada como humor, ainda para buscar lucro, provocar, causar reações passionais, estimular polarizações, exercer influência política ou fazer propaganda (no sentido de manipular a opinião pública).

A passionalidade indicada por Claire Wardle, que estimula polarizações e é base da propaganda política, é a explicação que a Psicologia Social dispõe para a ampla aceitação, divulgação e consolidação da desinformação pela internet. Ainda que constatem que acreditaram numa mentira, as pessoas não renunciam a ela pois é coerente com seu jeito de pensar, agir,  e estar no mundo, ou porque lhe traz alguma compensação ou conforto. Isto é o que se chama “dissonância cognitiva”, que acontece quando pessoas têm necessidade de estabelecer uma coerência entre suas cognições (seus conhecimentos, suas opiniões, suas crenças), que acreditam ser “o certo”, com o que se apresenta como opção de comportamento ou de pensamento. 

Desinformação e religião

Esta abordagem da Psicologia Social é importante suporte para se compreender  como grupos religiosos, estão propensos não só a assimilar as notícias e ideias mentirosas que circulam pela internet, coerentes com suas crenças, como também a fazer a propagação, uma espécie de “evangelização”, disseminando estas notícias e ideias para que convertam pessoas ao mesmo propósito.

Nesse sentido, importa demarcar que não são apenas pessoas e grupos conservadores que propagam desinformação. A disseminação de falsidades ocorre entre diferentes grupos ideológicos, intensificando polarizações. No entanto, grupos cristãos conservadores parecem ser os mais propensos à propagação, por conta de maior exposição à “dissonância cognitiva”. Tais grupos rejeitam transformações sociais e políticas que confrontam convicções que possuem, alimentadas pela forma como se constitui a sua dimensão da fé cristã.

Estudos empíricos nos EUA têm estabelecido a conexão entre a recepção e a propagação de desinformação com o imaginário de cristãos fundamentalistas. O pesquisador de Literatura Americana e Religião da Universidade de Victoria (Inglaterra) Christopher Douglas, por exemplo, indica que alguns aspectos da cultura fundamentalista são a base para que fake news se espalhe facilmente entre cristãos conservadores. Entre essas características destacam-se 1) negação da ciência (especialmente da teoria da evolução e da leitura contextual da Bíblia) e desqualificação da informação pelas mídias;  2) criação de fontes alternativas para conhecimento e informação: suas próprias universidades, museus e mídias; 3) formação cognitiva para rejeitar conhecimento especializado e buscar alternativa – geração de incapacidade de pensamento e análise críticos.

Segundo Douglas, isto ganha força, no espaço público para além da religião, com o fortalecimento de uma religiosidade partidária entre fiéis (afinidade eletiva com a direita política) e uma aproximação aos extremismos conservadores.

Há ainda o pânico moral e a retórica do medo que são utilizados para disseminar desinformação de um modo geral, mas afeta grupos religiosos, especialmente evangélicos no Brasil. Estes cultivam o imaginário de enfrentamento de inimigos e da perseverança diante da perseguição religiosa como alimento da fé. Discursos em torno da “defesa da família” e dos filhos das famílias, como núcleos da sociedade que estariam em risco, por conta da agenda de igualdade de direitos sexuais, têm forte apelo. Para isso, campanhas políticas anti-direitos recorrem às mídias em todos os formatos, tradicionais e digitais, com farto uso de desinformação, em especial de fake news, para alimentação do pânico moral e para interferência nas pautas políticas. Há também a disseminação de discursos de ódio contra movimentos sociais e contra ativistas de direitos humanos, identificados como inimigos da fé, que alcança grupos cristãos. 

O tema da cristofobia e da perseguição a cristãos no Brasil também tem tido amplo apelo. Manipula-se, neste caso, a noção de combate a inimigos para alimentar disputas no cenário religioso e político. Além disso, configura-se uma estratégia de políticos e religiosos extremistas que pedem mais liberdade e usam a palavra para falarem e agirem como quiserem, contra os direitos daqueles que consideram “inimigos da fé”. Estes inimigos são representados por ativistas de direitos humanos, partidos de esquerda, movimentos por direitos sexuais e reprodutivos, religiosos não cristãos e, até cristãos progressistas – nem os da mesma família da fé são poupados.

No Brasil, a pesquisa realizada pelo Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde da UFRJ, buscou compreender o uso intenso do Whatsapp no fortalecimento de redes de desinformação no segmento evangélico. Intitulada “Caminhos da desinformação: evangélicos, fake news e WhatsApp no Brasil”, a pesquisa trabalhou nos resultados de 1650 questionários aplicados em congregações das igrejas Batista e Assembleia de Deus, no Rio de Janeiro e em Recife (as duas maiores igrejas evangélicas e as duas cidades de maior concentração de evangélicos, no Brasil, segundo o Censo 2010). Também foram aplicados formulários on line com pessoas de todas as religiões e sem religião em todo o país, e realizados grupos de diálogo nestas localidades.

Como resultado, 49%, ou quase metade, dos evangélicos que responderam questionários afirmaram ter recebido conteúdo falso, e, neste segmento religioso, 77,6% disseram ter recebido desinformação em grupos de Whatsapp relacionados à sua comunidade de fé. Na coleta com outros grupos religiosos, 38,5% de católicos, 35,7% de espíritas e 28,6% de fiéis de religiões afro-brasileiras afirmaram ter recebido mensagens falsas em grupos relacionados às suas religiões. Entre os entrevistados, 61,9% dos evangélicos afirmaram que as notícias sobre política eram as mais frequentes. 

Gráfico:  Wagner Tadeu Tonel (Agência Pública)

Esta pesquisa mostrou que além do apelo que a desinformação exerce sobre grupos religiosos, porque se adequa mais a crenças e valores e menos a fatos propriamente ditos, elementos relacionados à prática da religião entre evangélicos é que interferem mais fortemente na propagação de desinformação. O uso intenso das mídias sociais como “um novo ir à igreja” é uma destas práticas, associada ao sentimento de pertença à comunidade que gera uma imagem de líderes e irmãos como fontes confiáveis de notícias.

O enfrentamento da desinformação no Brasil 

São vários os projetos no Brasil voltados para o enfrentamento da desinformação por meio da checagem de fatos, com número ampliado desde as eleições de 2018, ligados a empresas de mídia e também de iniciativa independente. Destacam-se: Agência Lupa, UOL Confere, Estadão Verifica, Fato ou Fake, Projeto Comprova, Aos Fatos, Boatos.org e o Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias. 

O Coletivo Bereia é iniciativa ímpar entre as listadas, pois é o único projeto de jornalismo colaborativo de checagem de fatos especializado em religião e tornou-se pioneiro no Brasil em verificações de fakes news nesse segmento. O projeto é resultado da pesquisa do Instituto NUTES da UFRJ.

Bereia faz parte da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), uma iniciativa de enfrentamento que envolve coletivos, projetos desenvolvidos dentro de universidades, agências, redes de comunicação, revistas, movimentos sociais, projetos de comunicação educativa para a mídia e mídias sociais, aplicativo de monitoramento de desinformação, observatórios, projetos de fact-checking, projetos de pesquisa, instituições científicas, revistas científicas, dentre outros. A ideia, conforme o site da RNCD “é unir esforços, praticar a sinergia, potencializar a visibilidade do trabalho realizado em cada projeto e criar uma onda contrária ao movimento da desinformação”.

Um dos pontos nevrálgicos em toda a ação de enfrentamento da desinformação é o papel das plataformas de mídias sociais. Ao contrário de mídias tradicionais como a televisão, a imprensa, o rádio, as empresas que as orientam (Google, Facebook, Twitter, são as principais), são soberanas, isto é autorreguladas, e os casos já mencionados aqui, desde 2016, mostram o quanto esta autorregulação é ineficaz e as isentam de responsabilidade. Além disso, publicar desinformação pode ser um negócio rentável. Na estrutura de funcionamento das plataformas, as que têm mais acessos recebem maiores remunerações de anunciantes.  E uma maneira rápida de conseguir muitos acessos é veicular conteúdo que circule bem nos nichos da internet afetados por desinformação. O pesquisador Sérgio Branco explica isto: “quando se juntam na mesma equação torcida ideológica + informações imprecisas + facilidade de difusão do conteúdo e, claro, uma boa dose de má-fé, o cenário se torna muito pouco auspicioso para o debate público”.

As plataformas, preocupadas com as investigações de diferentes instituições de Estados a que têm sido submetidas pelos danos em processos de interesse público, criaram políticas próprias para barrarem a proliferação de desinformação, incluindo mecanismos de filtragem de desinformação. O Facebook, por exemplo, decidiu trabalhar em parceria com projetos de fact-checking certificados pela Rede Internacional ade Fact-Checking (IFCN) que identificam, analisam e classificam a desinformação viral nos aplicativos Facebook, Instagram e WhatsApp, tornando a classificação visível para usuários.

Mesmo com estas iniciativas, essas plataformas são soberanas e se autorregulam, ficando os usuários sujeitos às decisões desses organismos privados guiados por seus interesses políticos e econômicos.

Em relação ao Estado, apenas o poder Executivo não tem uma iniciativa de enfrentamento do fenômeno. Pelo contrário, são identificadas contraofensivas, da parte do governo federal, em relação às ações dos poderes Legislativo e Judiciário, que serão objeto da Parte 2 deste artigo.

Magali Cunha é doutora em Ciências da Comunicação com estágio pós-doutoral em Comunicação e Política. Pesquisadora em Comunicação, Religiões e Política. Jornalista, editora-geral do Coletivo Bereia – Informação e Checagem de Notícias. Colaboradora do ISER.

Foto: Pexels

Leia as partes 2 e 3 da série: “Ações do Poder Legislativo frente o fenômeno das fake news” e “Ações dos Poderes Judiciário e Executivo frente o fenômeno das Fake News”.

Referências

BRANCO, Sérgio. Fake News e os Caminhos para Fora da Bolha. ITS, 9 ago. 2017. Disponível em: http://itsrio.org/pt/publicacoes/fake-news-e-os-caminhos-para-fora-da-bolha  

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BRONSTEIN, MIchael V., PENNYCOOK, G. BEAR, A. RAND, D. G., CANNON, T. D. Belief in fake news is associated with delusionality, dogmatism, religious fundamentalism and reduced analitic thinking. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, 8, p. 108-117, 2019. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2211368118301050.

CUNHA, Magali. As mentiras que circulam em ambientes religiosos no Brasil. CartaCapital, Coluna Diálogos da Fé, 27 out 2021. https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/as-mentiras-que-circulam-em-ambientes-religiosos-no-brasil/ 

DOUGLAS, Christopher. The religious origins of fake news and “alternative facts”. Religious Dispatches, 23 Feb 2017. https://religiondispatches.org/the-religious-origins-of-fake-news-and-alternative-facts/

POR QUE é tão difícil combater a crença em fake news, segundo a psicologia social. Política na cabeça. Blogs da Unicamp. 22 jul 2019. https://www.blogs.unicamp.br/politicanacabeca/2019/07/22/por-que-e-tao-dificil-combater-a-crenca-em-fake-news

ROCHA, Igor T. C. Fake news e fundamentalismo como formas de ver o mundo. Justificando, 12 Mar 2019. http://www.justificando.com/2019/03/12/fake-news-e-fundamentalismo-como-formas-de-ver-o-mundo